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Roma Antiga

César e Nicomedes: a história gay mais famosa de Roma (ou o primeiro golpe do baú da história?)

O dom-joão mais famoso de Roma carregou a vida inteira um único mexerico sobre a sua virilidade: que, quando jovem, fora amante de um rei riquíssimo da Ásia Menor. Seus próprios legionários cantavam isso na cara dele · século I a.C.

24 mai 2026 · 14 min
Um jovem enviado romano de toga branca comparece diante de um rei oriental entronizado e vestido de púrpura num opulento salão palaciano cheio de ouro, com leões dourados no trono

Júlio César foi, segundo a fama, o maior mulherengo da sua época: seduziu meia aristocracia romana, rainhas estrangeiras (Cleópatra inclusa) e mais esposas alheias do que ninguém conseguiu contar. E, no entanto, sobre aquele garanhão imparável pesou a vida toda um único e indelével mexerico sexual, um só, mas tão grudento que nem o dono do mundo conseguiu se livrar dele jamais: o boato de que, quando jovem e sem um tostão, fora amante (e, escandaloso para um romano, a parte passiva) de um rei oriental encharcado de ouro. Acompanhem-me, caros leitores, ao mexerico mais famoso, mais cantado e mais corrosivo de toda a Antiguidade. E no final vou lhes dar a minha própria e maliciosa teoria sobre o assunto.

A única mancha do garanhão de Roma

Convém começar deixando clara a reputação sexual de César, porque torna o mexerico ainda mais saboroso. César era célebre pelo contrário do que o boato insinuava: era um mulherengo compulsivo, um sedutor incansável de damas casadas. Seus próprios soldados, nas suas cantigas de quartel, brincavam dizendo que era preciso esconder as esposas quando ele chegava à cidade. Ou seja, de «pouca coisa com as mulheres», nada disso: o homem era um furacão.

E justamente por isso é tão chamativo que, no meio de semelhante histórico heterossexual, houvesse UMA história, e só uma, que apontava em outra direção. O historiador Suetônio, que recolheu toda a roupa suja dos imperadores, qualificou-a como a única mancha que maculou a reputação viril de César. Uma só mancha em toda uma vida de conquistas de alcova. Mas que mancha, caros leitores. Que mancha.

A missão na Bitínia (e a suspeita predileção)

Voltemos ao ano 80 antes de Cristo, mais ou menos. César era então um jovenzinho de uns vinte anos, patrício de boa família mas quase sem dinheiro (lembrem-se deste detalhe, que depois vai nos fazer falta), e dava os primeiros passos na carreira militar e política. Um superior o enviou em missão diplomática à corte de Nicomedes IV, rei da Bitínia, um próspero reino do noroeste da Ásia Menor, na atual Turquia, voltado para o mar Negro. A incumbência: providenciar o envio de uma frota.

Até aqui, tudo normal. O problema é o que veio depois. Porque o jovem César ficou na corte de Nicomedes um tempo longuíssimo, muito mais do que qualquer providência sobre navios pudesse justificar. E, como se não bastasse, pouco depois deu um jeito de VOLTAR à Bitínia com uma desculpa esfarrapada (cobrar um dinheiro que supostamente deviam a um cliente seu). Duas estadias prolongadas na corte de um rei, sendo um vinteanão bonito e sem um tostão. As más-línguas, que em Roma nunca descansavam, ferveram. E não pararam mais.

O mexerico que nunca se apagou

O boato espalhou-se como pólvora: que o jovem César fora amante do rei Nicomedes. E, uma vez pegado, aquele rótulo o perseguiu pelo resto da vida com uma tenacidade espantosa. Não foi um mexerico de um dia: foi um estigma de quarenta anos, que os seus inimigos políticos esfregaram na cara dele uma e outra vez a cada ocasião propícia.

Suetônio reúne um autêntico florilégio de alfinetadas. Seus rivais o chamavam de «a rainha da Bitínia». O político Bíbulo, seu grande inimigo, batizou-o assim em editos oficiais. Outro contemporâneo, Curião, soltou sobre ele uma das frases mais demolidoras da história dos insultos: disse que César era «o marido de todas as mulheres e a mulher de todos os maridos». Tome essa. Houve poemas satíricos, piadas no Senado, comentários mordazes do próprio Cícero. César sempre negou, indignado, jurando de pés juntos que era falso. Mas quanto mais negava, mais todos riam. Em Roma, sabe-se, a calúnia que faz graça é imortal.

A cantiga que lhe cantavam os próprios soldados

E aqui chega o momento estelar, o detalhe que transforma este mexerico em lenda. Porque a zoação não vinha só dos seus inimigos: vinha até dos seus. Existia em Roma uma tradição curiosíssima: no dia em que um general celebrava um triunfo (o grande desfile da vitória pelas ruas de Roma), os seus próprios soldados tinham licença para cantar cantigas zombeteiras e indecentes ao seu chefe, à guisa de zoação e, por superstição, para esconjurar o azar de tanta glória.

Pois bem, quando César celebrou o seu triunfo depois de conquistar a Gália, os seus legionários, marchando atrás dele, cantaram-lhe a plenos pulmões e na cara uma cantiguinha que passou para a história. Dizia, em latim:

«Gallias Caesar subegit, Nicomedes Caesarem.»

Que se traduz como: «César subjugou as Gálias; Nicomedes subjugou César». E aqui está a genialidade safada da coisa, intraduzível por completo: o verbo latino «subigere» significa ao mesmo tempo «subjugar, conquistar» (em sentido militar) e «montar» (em sentido, ahã, carnal). De modo que a cantiga dizia duas coisas ao mesmo tempo: que, assim como César conquistara militarmente a Gália, o rei Nicomedes o «conquistara» na cama, e adivinhem em que papel. Os seus próprios soldados vitoriosos, no dia mais glorioso da sua vida, cantando ao chefe que um rei oriental tinha o montado. Se isso não é amor de tropa, que desça Júpiter para ver.

Júlio César, vestido de púrpura, desfila na sua quadriga dourada durante o triunfo romano enquanto os seus legionários marcham atrás cantando e rindo no meio da multidão
No triunfo, os legionários cantavam ao seu general a cantiga mais zombeteira

A chave romana: o problema não era com quem, mas como

Aqui é preciso uma explicação importante para entender de verdade o escândalo, porque senão não se capta. Para um romano da época, o sexo entre homens não escandalizava tanto em si. O que para um varão romano da elite era uma vergonha intolerável, uma mancha humilhante na sua dignidade, era ser a parte PASSIVA, quem recebe, na relação. Isso era considerado próprio de mulheres, de escravos ou de prostitutos: indigno de um homem livre, quanto mais de um futuro líder de Roma.

Por isso o veneno da cantiga estava no «subegit»: não lhe cantavam que César tivera um caso com um homem e pronto, cantavam-lhe que fizera de mulher, que fora o «subjugado», o montado. Esse, e nenhum outro, era o dardo que lhe cravavam. Atacavam a sua virilidade, a sua dignidade de macho romano, o próprio alicerce da sua autoridade. Por isso lhe doía tanto e por isso os seus inimigos não largavam a presa: era o único flanco por onde aquele homem invencível sangrava.

Minha hipótese maliciosa (e aviso: isto já é da minha lavra)

E agora, caros leitores, permitam-me uma conjectura pessoal, porque aqui deixo o terreno firme do documentado e entro no da especulação maliciosa, que fique claro. Faz anos que dou voltas a um detalhe que quase ninguém sublinha: de TODA a longuíssima e agitadíssima vida sexual de Júlio César, esta é a ÚNICA história com um homem. Uma só, e de juventude. Não é curioso?

E então me ocorre uma pergunta perversa. Lembrem-se de como era o César daquele momento: um jovem patrício ambicioso até a medula, com planos enormes… e sem um denário no bolso. Um aristocrata arruinado com sonhos de grandeza caríssimos. E diante dele, quem? Um rei, Nicomedes, dono de um dos reinos mais ricos da Ásia Menor, nadando em ouro. (Não era, como às vezes se confunde, descendente do lendário Creso da Lídia, esse sim o rei mais rico da Antiguidade de quem lhes falei noutro lugar; Nicomedes reinava na vizinha Bitínia. Mas de grana, andava igualmente cheio.)

Então a minha suspeita, malpensada por completo, é esta: e se o jovenzíssimo César, esperto como o diabo e com mais ambição do que recursos, simplesmente fez uma conta? E se aquilo, mais do que uma grande história de amor ou a calúnia contra a qual jurava, foi um investimento estratégico de um rapaz sem meios que soube se encostar na árvore que dava mais ouro? O primeiro golpe do baú documentado da história, por assim dizer. Que fique claro que isto é pura especulação minha, uma maldade de romancista; as fontes recolhem só o boato, não o motivo. Mas conhecendo o personagem —aquele animal político capaz de qualquer cálculo para subir— a mim não me espantaria nada. César nunca fez nada de graça.

Um busto de mármore de um jovem romano ao lado de um monte de moedas de ouro reluzentes, uma coroa real oriental e uma taça de bronze sobre uma mesa de mármore, com cortinas carmesim ao fundo
Ouro, ambição e poder: o verdadeiro motor da Roma de César

O mexerico imortal

Seja como for (amor, calúnia, cálculo interesseiro ou vai saber), o certo é que o caso de Nicomedes acompanhou César até o túmulo e além, transformado na história «gay» mais famosa do mundo antigo. O espantoso é a honestidade impiedosa das fontes romanas, que não perdoavam nada ao homem mais poderoso do mundo, e a liberdade com que os seus próprios soldados zombavam do chefe na cara. Roma podia adorar César, mas não pensava em deixar de rir dele.

E nos deixa uma lição sobre o poder e a reputação que não vence o prazo: que nem o homem mais invencível do seu tempo, aquele que subjugou a Gália e cruzou o Rubicão, conseguiu jamais subjugar um bom mexerico. A Gália rendeu-se a César; o boato de Nicomedes, nunca. Há batalhas que nem os césares vencem.

A propósito, esse mundo de reis orientais nadando em ouro, o da fabulosa riqueza de Creso e da Lídia que esta história tangenciou de longe, contei a fundo no meu livro «O Livro da Musa Clio». Se você se fascina por reis ricos até o obsceno e pelas intrigas da Ásia Menor, lá ele o espera. A história como nunca lhe contaram, também a mais picante.

✠ Leitura recomendada ✠

O Livro da Musa Clio

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✠ David S. Matrecano
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