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Roma Antiga

Quando os piratas sequestraram Júlio César (e viveram para se arrepender por bem pouco tempo)

Um César jovenzinho e atrevido caiu nas mãos dos piratas do Mediterrâneo, tornou-se amiguíssimo deles, prometeu-lhes entre risadas que os crucificaria todos… e, uma vez livre, cumpriu a palavra ao pé da letra · Mar Egeu, por volta de 75 a.C.

23 mai 2026 · 15 min
Um jovem Júlio César de toga sorri desafiador com os braços cruzados, rodeado de piratas armados no convés de um navio sob a luz dourada do Mediterrâneo

Esta é uma das melhores histórias de toda a Antiguidade, e o espantoso é que quase ninguém a conhece. Trata de um vinteanão presunçoso, brilhante e perigosamente seguro de si, que cai prisioneiro de uns piratas, passa o cativeiro tratando-os como se fossem seus criados, promete-lhes morrendo de rir que vai crucificar todos eles, e depois, já livre, persegue-os pelo Mediterrâneo e cumpre a promessa com uma frieza de arrepiar. Ah, e o vinteanão se chamava Júlio César. Sim, aquele Júlio César. Acompanhem-me, caros leitores, a conhecer o futuro senhor de Roma quando ainda era um moleque com uma audácia descomunal.

Um jovem cheio de pose rumo a Rodes

Corria mais ou menos o ano 75 antes de Cristo. Júlio César era então um jovem de uns vinte e cinco anos, ainda muito longe de ser o conquistador das Gálias e o senhor de Roma. Pertencia a uma família patrícia decadente, tinha ambições políticas enormes e, sobretudo, uma autoestima do tamanho de um aqueduto. Como todo jovem romano de boa família que se prezasse, viajava ao Oriente para aperfeiçoar a arte da oratória, fundamental para triunfar na política romana.

Seu destino era a ilha de Rodes, onde queria estudar com um famoso mestre de retórica. Então embarcou e fez rumo pelo mar Egeu. O que o jovem César não esperava é que aquele mar estava infestado de uma praga temível: os piratas cilícios, assim chamados porque vinham da Cilícia, na costa da atual Turquia. Aqueles piratas eram o flagelo do Mediterrâneo, assaltavam navios, saqueavam costas e sequestravam viajantes ricos para pedir resgate. E um patrício romano viajando com séquito era um bocado de luxo.

O sequestro e o resgate mais insólito

Perto da pequena ilha de Farmacusa, os piratas abordaram o navio e capturaram César. Para eles, um cliente perfeito: jovem, rico, de família importante. Calcularam seu valor e exigiram um resgate de vinte talentos, uma soma considerável. E aqui acontece o primeiro detalhe delicioso desta história, aquele que define o caráter do personagem.

Porque César, em vez de se aterrorizar ou de se aliviar, ofendeu-se. Só vinte talentos? Por ele? Soltou uma gargalhada e disse aos seus captores que não tinham a menor ideia de quem haviam capturado, que ele valia muito mais, e que pedissem ao menos cinquenta talentos. Você leu bem: o sequestrado repreendeu os sequestradores por pedirem pouco dinheiro, e exigiu que aumentassem o próprio resgate. Os piratas, atônitos, aceitaram de bom grado (mais dinheiro para eles). César mandou seus acompanhantes às cidades vizinhas reunir a fortuna, e ficou ele como refém, quase sozinho, no meio do bando de foragidos. Começavam trinta e oito dias de um cativeiro dos mais peculiares.

O cativo que mandava nos seus captores

O que aconteceu durante aquelas quase seis semanas é de emoldurar. Porque César não se comportou um único dia como um prisioneiro assustado. Comportou-se como se os piratas fossem sua escolta pessoal e ele, o chefe. Participava dos jogos e dos exercícios físicos deles como se fosse mais um, mas dando ordens. Quando queria dormir e os piratas faziam barulho, mandava-os calar a boca, e eles, desconcertados, obedeciam.

Mas o melhor detalhe é o literário. César, que se gabava de ser um grande orador e poeta, escrevia poemas e discursos durante o cativeiro e depois os lia em voz alta para os piratas, esperando admiração. E quando aqueles rudes foragidos não aplaudiam seus versos com o entusiasmo que ele considerava merecer, César os insultava na cara, chamando-os de analfabetos e bárbaros incultos incapazes de apreciar o gênio. Imaginem a cena: um sequestrado chamando de ignorantes os seus sequestradores armados até os dentes por não saberem apreciar a sua poesia. Aquele rapaz tinha um belo par de coisas, e muito bem postas.

Júlio César, jovem e de toga, recita os seus poemas com gesto teatral a um grupo de piratas entediados e perplexos no porão do navio, iluminado por uma lanterna
César lendo os seus versos aos piratas, que não aplaudiam o bastante

A promessa que parecia uma brincadeira

E em meio a todas aquelas extravagâncias, César tinha um costume que repetia sem parar, sempre com um sorriso de orelha a orelha. Avisava-os, rindo, do que pretendia fazer com eles assim que recuperasse a liberdade.

Jogava na cara deles, divertidíssimo, sem o menor disfarce, algo como:

«Riam agora, meus amigos, aproveitem. Porque assim que eu estiver livre, voltarei para buscá-los, vou capturar todos vocês e crucificá-los sem exceção.»

Os piratas se acabavam de rir. Para eles era o cúmulo da graça: o moleque presunçoso de quem tinham gostado (porque, é preciso dizer, César lhes era simpático, era divertido e gente boa) brincava com o seu número das crucificações. Viam aquilo como a fanfarrice simpática de um garoto com lábia demais. Tinham se tornado quase amigos, afinal. Como poderia falar a sério? Pobres iludidos. Não tinham entendido absolutamente nada. Quando César sorria e prometia crucificar você, não estava brincando: estava avisando.

Livre, e com a agenda muito clara

Por fim chegaram os cinquenta talentos do resgate, reunidos na cidade de Mileto. Os piratas receberam, cumpriram a sua parte e soltaram César são e salvo em terra firme. Para eles, negócio redondo e caso encerrado. Adeus ao simpático rapaz dos versos e das ameaças engraçadas. Próximo.

Mas César, assim que pisou em terra, não perdeu um único segundo. Não foi comemorar, nem prosseguir a viagem a Rodes, nem agradecer por estar vivo. Foi direto ao porto de Mileto, reuniu às pressas alguns navios e alguns homens armados por sua conta e risco (não tinha nenhum cargo oficial que o permitisse, mas isso nunca o incomodou muito), e lançou-se ao mar atrás dos seus antigos captores. A agenda do dia tinha um único item, e não era exatamente perdoar.

A caçada

E aqui os piratas cometeram o seu último erro: continuavam tranquilíssimos, ancorados ainda perto da mesma ilha de Farmacusa, repartindo o butim, sem imaginar o que estava vindo por cima deles. Por que fugiriam? O assunto estava resolvido, tinham recebido, tudo em paz.

César caiu sobre eles de surpresa. Capturou a maior parte do bando sem grandes problemas, recuperou ainda os seus cinquenta talentos (o esperto levou de volta até o dinheiro do resgate) e apoderou-se do resto do butim como prêmio. Aqueles homens que poucos dias antes riam das piadas do rapaz eram agora seus prisioneiros, acorrentados, começando a desconfiar, tarde demais, de que talvez as «piadas» não tivessem sido tão piada assim. César os levou a terra e os trancou numa prisão da cidade de Pérgamo, à espera de fazer o que sempre lhes havia prometido.

Uma frota de galés de guerra romanas com remos e velas persegue os navios piratas em fuga pelo mar ao pôr do sol, perto de uma ilha rochosa do Egeu
César armou uma frota em Mileto e caçou os seus antigos captores

O governador que hesitou e o César que não

Aqui surgiu um obstáculo burocrático bem romano. O poder de julgar e punir aqueles criminosos cabia oficialmente ao governador romano da província da Ásia, um tal de Júnio. Então César recorreu a ele para que ordenasse a execução dos piratas. Mas o governador começou a enrolar e a fazer corpo mole. O motivo? Tinha posto o olho no butim e nos prisioneiros: achava que podia ganhar um bom dinheiro vendendo-os como escravos em vez de executá-los. A ganância, como se sabe, turva tudo.

César não era homem de esperar que um funcionário indeciso se decidisse enquanto calculava lucros. Perdeu a paciência. Então fez o que sabia fazer de melhor: tomar a iniciativa por conta própria, sem pedir permissão. Voltou a Pérgamo, onde mantinha os piratas trancados, e dispôs-se a cumprir pessoalmente a promessa que lhes fizera tantas vezes entre risadas. Se a justiça oficial hesitava, a justiça de César não.

A promessa cumprida (com um toque de «piedade»)

César ordenou crucificar todos os piratas. Todos. Exatamente como anunciara repetidas vezes durante o cativeiro, enquanto eles se acabavam de rir achando que era brincadeira. A fanfarrice simpática do rapaz dos versos revelou-se, palavra por palavra, uma sentença de morte anunciada. Quem avisa amigo é.

Mas a história tem um último detalhe, e é o que a transforma numa pequena obra-prima sobre o caráter deste homem. Acontece que César, no fundo, guardava-lhes certo apreço: durante o cativeiro o tinham tratado muito bem, sem maltratá-lo. Então teve com eles um gesto de «clemência», um sinal de gratidão. A crucificação era um castigo atroz e lentíssimo: o condenado podia levar dias para morrer, agonizando entre tormentos. Pois bem, César ordenou que, antes de pregá-los na cruz, lhes cortassem a garganta. Uma morte rápida e limpa, para poupá-los do sofrimento prolongado. Esse foi o seu agradecimento pelo bom tratamento recebido: degolá-los antes para que não sofressem na cruz.

Detenha-se um momento para saborear a lição, caro leitor. Para Júlio César, aquilo era um gesto compassivo, quase terno. «Vou crucificar vocês, sim, porque prometi e porque vocês são piratas; mas como gostei de vocês, mato vocês rápido antes para que não doa.» Se essa era a sua versão da piedade, vocês bem podem imaginar como gastava a crueldade.

O retrato de um homem perigoso

Esta anedota, que nos contam historiadores antigos como Plutarco e Suetônio, é muito mais do que uma curiosidade divertida. É um retrato psicológico perfeito do homem que décadas depois conquistaria as Gálias, cruzaria o Rubicão e se tornaria senhor do mundo romano. Já estava tudo ali, naquele vinteanão sequestrado: a segurança absoluta em si mesmo, o carisma que lhe conquistava até o afeto dos inimigos, o desprezo pelas normas e hierarquias quando o atrapalhavam, a capacidade de agir por conta própria passando por cima da autoridade, e aquela frieza implacável que lhe permitia sorrir para um homem e planejar a sua morte ao mesmo tempo.

Os piratas cometeram o erro de julgar César pela sua simpatia. Viram um rapaz encantador e brincalhão, e não perceberam que por trás daquele sorriso havia uma vontade de ferro que não conhecia o blefe. É uma das grandes lições da história: cuidado com os homens que ameaçam você rindo, porque às vezes os que mais sorriem são os que menos brincam.

O Mediterrâneo dos piratas, dos corsários e das vinganças servidas sobre as ondas é um cenário que me apaixona, e ao qual dediquei o meu livro «Malta 1565», onde corsários temíveis como Dragut sulcam esse mesmo mar séculos depois. Se você se fascina por esse mundo de mar, audácia e sangue, vai encontrá-lo nas suas páginas. A história como nunca lhe contaram.

✠ Leitura recomendada ✠

Malta 1565 · O Grande Cerco de Malta

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✠ David S. Matrecano
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