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Cruzadas

Emicho da Renânia: o conde que massacrou milhares de judeus em 1096

Antes mesmo de a Primeira Cruzada chegar à Terra Santa, no coração da Alemanha já havia se desencadeado um dos maiores massacres de judeus da história europeia, pelas mãos de cruzados cristãos · Renânia, primavera de 1096

22 mai 2026 · 12 min
O conde Emicho da Renânia, de cota de malha, empunha uma espada e ergue uma grande cruz enquanto a cidade arde atrás dele e a turba avança com tochas

Há episódios da história que precisamos encarar de frente, por mais dolorosos que sejam, porque esquecê-los seria uma segunda injustiça contra as vítimas. Este é um deles. Na primavera e no verão de 1096, antes mesmo de o grosso da Primeira Cruzada ter partido rumo a Jerusalém, bandos de cruzados devastaram as prósperas comunidades judaicas do vale do Reno, na atual Alemanha, num dos massacres mais atrozes que a Europa havia conhecido até então. O nome ligado para sempre àquele horror foi o de um nobre alemão: o conde Emicho. Acompanhem-me, caros leitores, a um dos capítulos mais negros do alvorecer das Cruzadas, aquele que conto no meu romance «A Cruzada de Pedro o Eremita».

Uma lógica perversa

Quando o papa Urbano II convocou a cruzada em 1095, sua mensagem era clara: marchar para o oriente, a milhares de quilômetros, para combater os muçulmanos e libertar a Terra Santa. Mas pelo caminho, em certas mentes envenenadas pelo fanatismo, pela ganância e pelo ódio, surgiu um raciocínio monstruoso, que as crônicas da época nos transmitiram.

O argumento, na boca daqueles cruzados, soava mais ou menos assim, e vale a pena reproduzi-lo para entender a dimensão do crime e condená-lo sem reservas:

«Por que ir combater os inimigos de Cristo no fim do mundo, se aqui mesmo, no meio de nós, vive o povo que o matou? Comecemos a obra de Deus em nossa própria casa.»

Era uma justificativa abominável, sem o menor fundamento nem na doutrina cristã oficial nem na mais elementar moral. Mas serviu de pretexto para o que era, na verdade, uma mistura de fanatismo religioso, de ganância (as comunidades judaicas eram prósperas e havia muito a saquear) e de pura violência de massa. Sob essa desculpa, os bandos caíram sobre os judeus das cidades do Reno.

O conde Emicho, o rosto do horror

O mais sinistro daqueles cabeças de bando foi o conde Emicho de Flonheim-Leiningen, um nobre renano que reuniu sob seu comando uma grande hoste e a conduziu de cidade em cidade semeando a morte. As crônicas, tanto as cristãs quanto as dilacerantes crônicas hebraicas que deixaram registro do desastre, apontam-no como o principal autor dos piores massacres.

Emicho e seus homens percorreram as grandes cidades do vale do Reno, onde floresciam antigas e cultas comunidades judaicas: Espira, Worms, Mogúncia, Colônia. Em cada uma delas se repetiu o mesmo padrão de horror, com variações: o assalto aos bairros judeus, o saque e o massacre de homens, mulheres e crianças que se recusavam a renegar sua fé e a se converter à força. Mogúncia, em particular, foi palco de uma das chacinas mais pavorosas, com o aniquilamento de boa parte de sua comunidade judaica, uma das mais importantes da Europa.

O saldo foi devastador. Milhares de judeus foram assassinados naquelas semanas de 1096 ao longo do Reno. Comunidades inteiras, com séculos de história, foram apagadas do mapa. Por sua dimensão e sua selvageria, aqueles massacres figuram entre os piores surtos de violência antijudaica que a Europa já vira, e deixaram uma ferida profundíssima na memória do povo judeu.

O bispo Adalberto, de mitra, protege com os braços estendidos famílias judias aterrorizadas enquanto além da grade arde a turba com tochas
O bispo Adalberto, «um anjo no inferno», tentando proteger os perseguidos

Os outros carrascos: Gottschalk e Folkmar

Emicho não agiu sozinho. Outros bandos, liderados por figuras igualmente fanáticas, juntaram-se ao horror. As crônicas citam um monge alemão chamado Gottschalk, que reuniu sua própria hoste e deixou um rastro de violência, e um sacerdote chamado Folkmar (Volkmar), que conduziu outro grupo para o oriente, até a Boêmia, atacando pelo caminho as comunidades judaicas.

Que um conde, um monge e um sacerdote estivessem entre os cabeças de bando diz muito sobre como o fanatismo pode corromper todas as camadas de uma sociedade. Não eram meros soldados ou bandidos: havia homens da Igreja, que deveriam pregar a caridade, liderando massacres. O veneno do ódio não respeitou nem hábito nem título.

Aqueles que tentaram salvá-los

Em meio a tanta escuridão, é de justiça lembrar também aqueles que tentaram deter a barbárie, porque sua existência prova que o horror não era inevitável e que a decência é sempre possível. A hierarquia oficial da Igreja não havia ordenado nem aprovado aqueles massacres; pelo contrário, vários bispos tentaram proteger os judeus de suas cidades, arriscando para isso a própria autoridade e até a própria segurança.

No meu romance, retrato a figura do bispo Adalberto, a quem chamo de «um anjo no meio do inferno» por seus esforços em abrigar os perseguidos. Vários prelados abriram as portas de seus palácios para dar refúgio aos judeus que fugiam das multidões, e alguns conseguiram salvar uma parte deles. Outros, porém, fracassaram: em Mogúncia, apesar das tentativas de proteção, as multidões enfurecidas invadiram até o recinto do arcebispo, o de Ruthard, uma figura ambígua cujo papel (entre a caridade e a suspeita de ganância pelas riquezas judaicas) ainda hoje é debatido. A proteção episcopal, onde foi tentada, muitas vezes não bastou contra a fúria das multidões.

O martírio das comunidades

As crônicas hebraicas que sobreviveram ao desastre deixaram um testemunho dilacerante daqueles dias. Diante da terrível escolha que seus agressores lhes impunham, a conversão forçada ao cristianismo ou a morte, muitos membros das comunidades judaicas escolheram morrer em vez de renegar sua fé. Houve cenas de drama insuportável, de famílias inteiras que preferiram perecer fiéis às suas crenças a serem batizadas à força.

Aquele sacrifício gravou-se na memória do judaísmo como um de seus episódios de martírio mais dolorosos. Não cabe a um artigo de divulgação histórica deter-se nos detalhes mais terríveis; basta dizer que o que aconteceu no Reno em 1096 foi uma tragédia humana de primeira ordem, e que as vítimas merecem ser lembradas com respeito e dor, não reduzidas a uma nota de rodapé na epopeia das Cruzadas.

A queda de Emicho

O que foi feito do conde Emicho? Sua história teve um fim que os contemporâneos não hesitaram em ler como um castigo. Depois dos massacres do Reno, Emicho conduziu sua hoste para o oriente, com a intenção de seguir a rota para a Terra Santa atravessando a Hungria. Mas o rei da Hungria, Colomano, alarmado com a violência e a desordem daquela corja, negou-lhe a passagem pelo seu reino.

Emicho tentou forçar a entrada e cercou uma fortaleza fronteiriça húngara perto de Moson. E ali seu exército indisciplinado foi derrotado e disperso pelos húngaros. A hoste que havia semeado o terror entre os indefesos desfez-se no momento em que enfrentou soldados de verdade. Emicho voltou às suas terras em desgraça, sem sequer ter posto os pés na Terra Santa. Muitos cronistas da época, tanto cristãos quanto judeus, viram naquela derrota humilhante a mão da justiça divina punindo o culpado de tantos crimes. O homem que havia justificado seus massacres invocando a vontade de Deus foi, segundo seus próprios contemporâneos, abandonado justamente por aquele Deus em cujo nome havia matado.

O conde Emicho, em primeiro plano e com expressão de pânico, vê o seu exército derrotado e disperso pelos húngaros diante da fortaleza de Moson
A derrota e a desgraça de Emicho diante dos húngaros do rei Colomano, em Moson

Por que é preciso lembrar

Os massacres da Renânia de 1096 são um episódio que por muito tempo permaneceu à sombra da grande epopeia das Cruzadas, aquela narrativa de cavaleiros e feitos heroicos. Mas são parte inseparável da história, e silenciá-los seria trair tanto a verdade quanto a memória das vítimas. Os historiadores hoje os consideram um dos primeiros grandes capítulos de violência antissemita em larga escala na Europa medieval, um sinistro precedente de perseguições que, infelizmente, se repetiriam nos séculos seguintes com consequências cada vez mais catastróficas.

Vale lembrar também que aqueles crimes não representavam a doutrina oficial da Igreja, que houve cristãos, bispos, vizinhos, que arriscaram muito para proteger seus concidadãos judeus, e que o principal culpado acabou derrotado e desonrado. Mas nada disso traz de volta à vida os milhares de inocentes assassinados, nem apaga a mancha do que aconteceu.

Escolhi narrar esses fatos em «A Cruzada de Pedro o Eremita», com o respeito e a crueza que merecem, porque acredito que a ficção histórica também serve a isso: a impedir que o tempo apague o que jamais deveria ter acontecido, e a fazer pesar mais, na memória, os nomes das vítimas do que os de seus carrascos. Se vocês quiserem conhecer esta história e todo o complexo e trágico começo da Primeira Cruzada, vão encontrá-la no meu livro. A história como nunca lhe contaram, inclusive em suas páginas mais negras.

✠ Leitura recomendada ✠

A Cruzada de Pedro o Eremita

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✠ David S. Matrecano
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