Há vidas que desafiam qualquer categoria. A de Balduíno IV de Jerusalém é uma delas. Coroado aos treze anos, leproso desde os nove, cego e paralítico no fim, governou o reino mais ameaçado da Cristandade durante mais de uma década com uma lucidez e uma coragem que nenhum dos seus contemporâneos saudáveis foi capaz de igualar.
A dinastia: cinco reis chamados Balduíno
Quando Godofredo de Bulhão conquistou Jerusalém em julho de 1099 à frente da Primeira Cruzada, recusou o título de rei da Cidade Santa. Foi o seu irmão Balduíno de Bolonha que, sem tais escrúpulos, se coroou Balduíno I no ano 1100, fundando assim a dinastia que governaria o Reino de Jerusalém durante quase um século.
Uma criança, um diagnóstico, um destino
Balduíno IV nasceu em 1161, filho do rei Amalrico I e de Inês de Courtenay. Era uma criança desperta, inteligente e fisicamente dotada — o seu tutor, o historiador Guilherme de Tiro, descreveu-o como um aluno excecionalmente brilhante. Foi precisamente Guilherme quem descobriu, quando Balduíno tinha cerca de nove anos, que a criança não sentia dor quando se lhe beliscava o braço direito. Os médicos não tardaram a confirmar o diagnóstico: lepra.
Montgisard, 1177: o milagre no deserto
A 25 de novembro de 1177, Saladino avançava para norte com um exército de vinte e cinco mil homens, convicto de que o reino cristão estava indefeso. Balduíno IV tinha dezasseis anos, o corpo já marcado pela lepra, e contava com menos de quinhentos cavaleiros e alguns milhares de infantaria. O que sucedeu na batalha de Montgisard é um dos episódios mais extraordinários das Guerras das Cruzadas. O jovem rei leproso, que mal conseguia segurar as rédeas com as mãos enfaixadas, liderou pessoalmente a carga. Saladino teve de fugir a cavalo deixando os seus mortos no campo. Perdeu mais de oito mil homens.
Governar com a morte por cima
O que torna Balduíno IV verdadeiramente único não é apenas a vitória de Montgisard. É a capacidade de governar com plena lucidez um reino em permanente estado de guerra, rodeado de nobres em conflito e cruzados recém-chegados da Europa que não compreendiam nada da política local — e tudo isso enquanto o seu corpo se desintegrava progressivamente.
Sibila, Guido de Lusinhã e o colapso
Balduíno IV morreu na primavera de 1185, com vinte e quatro anos, cego e consumido pela doença. O que havia defendido com o seu corpo destroçado durante mais de uma década foi perdido num único dia de verão, a 4 de julho de 1187, na batalha dos Cornos de Hattin, pela vaidade e incompetência de Guido de Lusinhã, o homem que a sua irmã Sibila havia escolhido como rei. Três meses depois, a 2 de outubro de 1187, Saladino entrou em Jerusalém. A lição que a história oferece é cruel e direta: por vezes, o homem mais doente da sala é o único que tem a cabeça clara.