Há vidas que desafiam qualquer categoria. A de Balduíno IV de Jerusalém é uma delas. Coroado aos treze anos, leproso desde os nove, cego e paralítico no fim, governou por mais de uma década o reino mais ameaçado da Cristandade com uma lucidez e uma coragem que nenhum de seus contemporâneos sãos foi capaz de igualar. E quando morreu, com apenas vinte e quatro anos, deixou o trono nas mãos dos únicos que podiam perder tudo — e perderam.
A dinastia: cinco reis chamados Balduíno
Quando Godofredo de Bulhão conquistou Jerusalém em julho de 1099 à frente da Primeira Cruzada, recusou o título de rei da Cidade Santa — não queria usar coroa de ouro onde Cristo usara coroa de espinhos. Foi seu irmão Balduíno de Bolonha quem, sem tais escrúpulos, coroou-se Balduíno I no ano 1100, fundando assim a dinastia que governaria o Reino de Jerusalém por quase um século.
Seguiram-se Balduíno II (1118–1131), primo do anterior e um dos pilares do reino jovem, que acolheu no Templo os primeiros nove cavaleiros de Hugues de Payens e viu nascer a Ordem dos Templários sob seu reinado. Depois vieram Balduíno III (1143–1163), que conquistou Ascalão aos fatímidas egípcios, e Balduíno IV (1174–1185), o mais extraordinário de todos. Cinco reis com o mesmo nome. Uma só obsessão: manter vivo o sonho impossível de um reino cristão no coração do Islã.
Uma criança, um diagnóstico, um destino
Balduíno IV nasceu em 1161, filho do rei Amalrico I e de Inês de Courtenay. Era uma criança esperta, inteligente e fisicamente dotada — seu tutor, o historiador Guilherme de Tiro, descreveu-o como um aluno excepcionalmente brilhante. Foi justamente Guilherme quem descobriu, quando Balduíno tinha cerca de nove anos, que a criança não sentia dor quando lhe beliscavam o braço direito. Os médicos não tardaram a confirmar o diagnóstico: lepra.
A doença avançaria inexoravelmente. Primeiro o braço direito, depois ambas as mãos, em seguida o rosto. Com o tempo, Balduíno perderia a visão de um olho, depois do outro. Em seus últimos anos governou prostrado em uma liteira, com o corpo envolto em ataduras, incapaz de montar a cavalo. E, no entanto, por mais de uma década, foi o homem que manteve em xeque o maior líder militar do Islã medieval.
Montgisard, 1177: o milagre no deserto
Em 25 de novembro de 1177, Saladino — o sultão aiúbida que havia reunificado o Egito e a Síria e sonhava em reconquistar Jerusalém — avançava para o norte com um exército de vinte e cinco mil homens, convencido de que o reino cristão estava indefeso. Balduíno IV tinha dezesseis anos, o corpo já marcado pela lepra, e contava com menos de quinhentos cavaleiros e alguns milhares de infantes.
O que aconteceu na batalha de Montgisard é um dos episódios mais extraordinários das Guerras das Cruzadas. O jovem rei leproso, que mal conseguia segurar as rédeas com as mãos enfaixadas, liderou pessoalmente a carga. A vanguarda sarracena foi surpreendida e destruída. Saladino teve de fugir a cavalo, deixando seus mortos no campo. Perdeu mais de oito mil homens. O reino de Jerusalém sobreviveu mais um dia.
Saladino, que era um homem de honra além de um gênio militar, reconheceu publicamente a derrota. E, segundo as crônicas, nunca esqueceu o jovem rei que o derrotara no deserto com metade de suas forças.

Governar com a morte por cima
O que torna Balduíno IV verdadeiramente único não é apenas a vitória de Montgisard. É a capacidade de governar com plena lucidez um reino em permanente estado de guerra, cercado de nobres em conflito e cruzados recém-chegados da Europa que não entendiam nada da política local — e tudo isso enquanto seu corpo se desintegrava progressivamente.
Balduíno tinha plena consciência de que não teria filhos. A lepra e os tratamentos da época tornavam impossíveis o casamento e a descendência. Sabia que morreria jovem e que o reino precisava de uma solução de continuidade. Por isso colocou toda a sua energia política em administrar a sucessão — um problema que acabaria destruindo o que ele havia construído.
Em 1180, num momento de fraqueza política, consentiu no casamento de sua irmã Sibila com um ambicioso nobre francês recém-chegado de além-mar: Guido de Lusinhã. Seria a decisão mais catastrófica de seu reinado.

Sibila, Guido de Lusinhã e o colapso
Sibila de Jerusalém era inteligente, bela e infelizmente apaixonada por Guido de Lusinhã — um homem descrito pelos cronistas contemporâneos com uma uniformidade devastadora: belo, cavalheiresco na aparência e completamente inepto para o governo e a guerra. Os barões do reino o desprezavam. O próprio Balduíno acabou reconhecendo seu erro e tentou anular o casamento e afastar Guido do poder, sem conseguir de todo.
Balduíno IV morreu na primavera de 1185, com vinte e quatro anos, cego e consumido pela doença. Havia nomeado regente seu sobrinho, o menino Balduíno V, filho de Sibila de um casamento anterior, sob a tutela do conde Raimundo III de Trípoli. Mas Balduíno V morreria apenas um ano depois, em 1186. E então Sibila, viúva livre, tomou uma decisão que mudaria a história: coroou-se rainha de Jerusalém e, em seguida, coroou ela mesma Guido de Lusinhã como rei consorte. Os barões que se opunham a Guido nada podiam fazer: o reino era de Sibila, e Sibila queria Guido.
Os Chifres de Hattin: o fim do sonho
Em 4 de julho de 1187, nas colinas vulcânicas junto ao lago de Tiberíades conhecidas como os Chifres de Hattin, Saladino destruiu o exército cruzado na batalha mais decisiva da história do reino de Jerusalém. Guido de Lusinhã havia tomado uma série de decisões militares tão equivocadas que os historiadores modernos ainda debatem se foram fruto da incompetência ou da traição: marchou com todo o exército por terreno árido em pleno verão, sem acesso à água, direto para a armadilha que Saladino lhe havia preparado.
O Verdadeiro Fragmento da Santa Cruz — a relíquia mais sagrada do reino, levada à batalha como símbolo de proteção divina — foi capturado pelos muçulmanos. O Grão-Mestre dos Templários, Gerardo de Ridefort, foi feito prisioneiro. Guido de Lusinhã foi capturado e levado à presença de Saladino, que lhe ofereceu água e lhe concedeu a vida. Naquele mesmo dia, porém, Saladino em pessoa havia tomado sua cimitarra e decapitado o nobre francês Reinaldo de Châtillon — o senhor de Kerak culpado de ter atacado uma caravana mercante árabe e assassinado a própria irmã de Saladino durante o saque. Era uma dívida de sangue que o sultão esperava saldar havia anos, e a batalha de Hattin a serviu em bandeja. Três meses depois, em 2 de outubro de 1187, Saladino entrou em Jerusalém.
O que Balduíno IV havia defendido com seu corpo destroçado por mais de uma década — o equilíbrio impossível, a negociação permanente, a resistência calculada — perdeu-se em um único dia de verão, pela vaidade e incompetência do homem que sua irmã escolhera como rei. A lição que a história oferece é cruel e direta: às vezes, o homem mais doente da sala é o único que tem a cabeça no lugar.
Fontes e referências
- Guilherme de Tiro, Historia rerum in partibus transmarinis gestarum (séc. XII).
- Crônicas do Reino Latino de Jerusalém — Batalha de Montgisard (25 de novembro de 1177).
Neste artigo NÃO há ficção
Está tudo documentado, e por quem sabia melhor do que ninguém: Guilherme de Tiro, arcebispo e preceptor do próprio Balduíno, que percebeu a lepra brincando com o menino e deixou isso por escrito em sua Historia rerum in partibus transmarinis gestarum. Daí vêm o diagnóstico, o reinado, a vitória de Montgisard em 25 de novembro de 1177 contra um exército muito superior, a deterioração progressiva e a morte aos vinte e quatro anos. E daí vem também o que aconteceu assim que ele faltou: o trono passou a Guido de Lusignan, que em dois anos levou o reino aos Chifres de Hattin — com Reinaldo de Châtillon e Gerardo de Ridefort executando o que aquele rei inepto ordenava. O que nenhuma crônica podia registrar é o que o rapaz por trás da máscara pensava enquanto perdia os dedos e continuava comandando exércitos; mas quem ler o que ele fez —e o que aconteceu quando já não estava— pode deduzir de que massa era feito. Os diálogos e esse pulso interior quem os põe é o romancista: David S. Matrecano.

