A 27 de novembro de 1095, num campo nos arredores de Clermont-Ferrand, em França, um homem levantou-se diante de uma multidão e pronunciou um discurso. O que aconteceu a seguir foi um dos fenómenos mais explosivos, massivos e incontroláveis da história do Ocidente. Dois séculos de guerra sagrada começaram naquele dia.
O cenário: um mundo no limite
Para compreender por que as palavras de Urbano II incendiaram a Europa como uma tocha sobre um campo de palha seca, é preciso compreender o mundo que as recebeu. A Europa de 1095 era um continente que fervilhava sob a sua própria pressão acumulada. Décadas de violência nobiliária interna tinham esgotado a paciência da Igreja e dos povos. A Trégua de Deus e a Paz de Deus tinham tentado conter a belicosidade da nobreza com resultados parciais.
Ao mesmo tempo, chegavam notícias glaçantes do Oriente. Os turcos seljúcidas tinham destruído o exército bizantino em Manzikert em 1071, e desde então avançavam imparáveis. Os peregrinos que conseguiam regressar traziam relatos de profanação, humilhação e massacre. Jerusalém, o coração espiritual da Cristandade, gemia sob uma dominação que o cristão ocidental percebia como um insulto cósmico.
O Concílio de Clermont: o rastilho
O Concílio de Clermont havia sido convocado para tratar de assuntos eclesiásticos ordinários. Mas Urbano II guardava algo para o final. No dia 27 de novembro, o último dia do concílio, o papa saiu para o campo aberto. Diante dele reunia-se uma multidão heterogénea e electrizada: clérigos, nobres, cavaleiros, comerciantes, camponeses. O papa subiu para um estrado elevado e começou a falar.
Urbano falou da profanação dos Lugares Santos. Falou das igrejas transformadas em estábulos, dos peregrinos assassinados, dos cristãos do Oriente esmagados sob o jugo sarraceno. E pronunciou as palavras que iriam mudar a história: empreender este caminho equivalia à remissão total dos pecados. Morrer nele era morrer como mártir, com o Paraíso garantido.
«Deus lo volt»: três palavras que incendiaram o mundo
Quando Urbano II terminou de falar, a multidão explodiu. O grito brotou espontâneo, unânime, ensurdecedor: «Deus lo volt» — Deus o quer. Os cronistas concordam que o papa não havia previsto tal resposta com tal intensidade. A multidão chorava, gritava, ajoelhava-se. Nobres arrancavam as suas capas e cortavam-nas em tiras para fazer cruzes vermelhas que cosiam nos ombros. O que Urbano havia acendido não era entusiasmo. Era um movimento.
O incêndio alastra: de Clermont a toda a Europa
A notícia do discurso de Clermont espalhou-se pela Europa com uma velocidade que desafia a compreensão para uma época sem imprensa, sem telégrafos e sem estradas pavimentadas. O fenómeno que ninguém tinha calculado foi a Cruzada Popular. Antes que os exércitos nobres pudessem organizar-se, um pregador itinerante chamado Pedro, o Eremita — que afirmava ter recebido uma carta do céu — percorria a França e o Sacro Império convocando as massas. O resultado foi um exército de entre cinquenta mil e cem mil pessoas que partiu na primavera de 1096.
Os exércitos dos príncipes: a Cruzada que chegou
Enquanto a Cruzada Popular morria na Anatólia, os exércitos nobiliários organizavam-se com lentidão e precisão. Quatro colunas principais partiram de diferentes pontos da Europa entre agosto e outubro de 1096. O que se seguiu foi uma campanha militar de três anos. Os cruzados tomaram Niceia em 1097. E finalmente, a 15 de julho de 1099, entraram em Jerusalém. Quatro anos após o discurso de Clermont, o objetivo havia sido alcançado.
Dois séculos que começaram com uma frase
A Primeira Cruzada abriu uma era que só se fecharia em 1291, quando os últimos cruzados abandonaram São João de Acre sob o fogo dos mamelucos. Dois séculos de expedições militares, de reinos efémeros no Oriente, de ordens monástico-militares que mudaram para sempre a fisionomia da Europa e do Médio Oriente. Tudo começou com um homem de pé sobre um estrado, num campo nos arredores de Clermont, num dia de novembro de 1095.