Seu nome virou sinônimo de riqueza desmedida: ainda hoje a gente diz «é mais rico que Creso». Reinou sobre a Lídia (hoje parte da Turquia) cercado de ouro, conquistas e esplendor, convencidíssimo de ser o homem mais abençoado e afortunado do planeta. E foi justamente por causa dessa soberba que os deuses lhe tinham reservado uma das quedas mais espetaculares de toda a antiguidade. Afivelem o cinto de segurança na coroa de Creso, porque isso aqui vai desabar a qualquer momento...
Atenção, caros leitores, leitoras e leitores de toda sorte, porque hoje a gente fala de um sujeito cujo nome chegou até nós 2.500 anos depois da sua morte, transformado numa expressão que muitos de nós (ou quase todos) ainda usamos: «ser mais rico que Creso». E garanto que esse título, o homem tinha conquistado no peito e na raça. Creso, rei da Lídia — uma região no atual oeste da Turquia, com capital na opulenta cidade de Sardes — foi, durante o século VI antes de Cristo, o monarca mais rico, poderoso e invejado do mundo conhecido. Uma espécie de multibilionário da antiguidade, caprichoso pra caramba, capaz de torrar uma fortuna pra comemorar o aniversário, ou aqueles vinte ou trinta milhõezinhos pra reformar a sua humilde morada (um palácio imenso onde você precisava de GPS pra se orientar) uma vez por ano. O cara tinha ouro até nas sobrancelhas — e digo literalmente! Acontece que as areias do rio Pactolo, que cruzava o seu reino, arrastavam consigo uma quantidade anual bem considerável de pepitas de ouro, e Creso foi, segundo a tradição, o primeiro rei da história a cunhar moedas de ouro e prata.
Mas esta história, como quase todas as que valem a pena contar, não fala do quanto ele era riquíssimo nem do quão alto chegou, e sim do quão baixo caiu. Porque Creso é o protagonista de uma das maiores parábolas morais de Heródoto: a do homem que teve tudo e se julgou intocável, até que a roda da fortuna girou e o deixou, no espaço de catorze dias, derrotado, humilhado e amarrado em cima de uma fogueira, prestes a ser queimado vivo. Vamos ao que interessa.
Sardes, a Nova York do ano 550 a.C.
Pra entender Creso, é preciso entender a sua cidade, Sardes. Depois de décadas de conquistas militares, a capital lídia tinha se tornado o centro do mundo: a cidade mais rica, mais opulenta e mais deslumbrante do seu tempo. Era, como digo no meu livro, a Nova York, a Londres, a Paris e a Roma da época, tudo junto. O destino obrigatório de qualquer sábio, viajante, comerciante ou aventureiro grego (ou de outras partes do mundo então conhecido) que pudesse bancar a viagem e quisesse ver de perto o que significava o luxo absoluto.
E Creso, sentado no seu trono incrustado de ouro, sabia-se o dono de tudo aquilo. Tinha herdado um reino próspero do pai, Aliates, e o levara ao seu máximo esplendor. Submeteu as cidades e colônias gregas da costa da Ásia Menor, a oeste da atual Turquia, juntou um tesouro lendário e se cercou de uma corte onde não faltava absolutamente nada. O homem tinha tudo. E isso, meus amigos, na lógica dos antigos gregos, era exatamente o problema. Porque não existe nada que irrite mais os deuses do Olimpo — notoriamente invejosos e vingativos —, nada que os deixe mais puto da vida, do que um mortal que se acha intocável e semidivino.
O aviso do sábio grego Sólon (que Creso ignorou)
Entre os muitos visitantes ilustres que passaram por Sardes, o mais célebre foi o legislador ateniense Sólon, um dos famosos Sete Sábios da Grécia, o homem que tinha redigido a primeira grande constituição de leis de Atenas. Creso, conhecendo a enorme importância do homem, hospedou-o com toda a pompa e, depois de passeá-lo pelos seus tesouros pra impressioná-lo, fez por fim a grande pergunta que lhe ardia por dentro: «Diga-me, sábio Sólon, de todos os homens que você conheceu nas suas viagens, qual é, na sua opinião, o mais feliz?» Esperava, naturalmente, que Sólon respondesse: «Ora, você, majestade — está à vista de todos, é claro.»
Mas Sólon, que não era do tipo que puxa o saco dos poderosos, respondeu que o homem mais feliz que conhecera era um humilde e anônimo camponês ateniense já falecido chamado Telo — um zé-ninguém total que mal era conhecido pela própria mãe. Creso, ao se ver comparado a um camponês maltrapilho, quase teve um treco isquêmico ali mesmo. E mesmo assim ele tenta mais duas vezes, perguntando ao sábio quem era, na opinião dele, o segundo e o terceiro mais feliz (na esperança de ser pelo menos um dos dois), e aquele grego filho da puta e enche-saco responde que não — que, na opinião dele, o segundo e o terceiro lugar iam sem dúvida pros irmãos gregos Cléobis e Bíton, também mortos, e que, se fosse o caso, o quarto lugar ia pra um porqueiro grego que estava, adivinhem, morto também…
— Mas «wattafâc», pensou Creso com os seus botões, «será que esse maldito grego veio a Sardes só pra me humilhar, ou o quê? Ainda por cima come por três — já devorou meia despensa do palácio e mandou pra dentro três quartos do melhor vinho das minhas adegas, caralho!»
O resumo daquela conversa lamentável é que Sólon disse a Creso que, na opinião dele, nenhum homem pode ser chamado de feliz enquanto não se vê como termina a sua vida — porque a fortuna, todos sabemos, é uma deusa caprichosa e volúvel que pode arrancar de você, num único instante, tudo o que lhe concedeu.
Creso, ofendidíssimo, despachou Sólon tomando-o por um provocador ingrato e seguiu a sua vida de rei feliz. Erro crasso. Porque, como veremos, as palavras daquele «maldito grego sabe-tudo» acabariam perseguindo-o até o alto de uma pira.
O oráculo mais trapaceiro da história

Passados alguns anos — e depois de enterrar o filho e herdeiro do trono, Átis, morto numa tragédia que conto à parte no meu artigo sobre o pé-frio Adrasto — Creso pôs os olhos num novo perigo que crescia com força a leste do seu reino: o Império Persa do jovem rei Ciro II, que acabava de derrotar e destronar em batalha o próprio avô, o rei Astíages da Média. Creso, vendo crescer aqueles persas que considerava uns selvagens sem educação, decidiu atacá-los antes que ficassem fortes demais.
Mas antes de se lançar à guerra, Creso fez o que todo governante prudente da época fazia: consultou o famoso Oráculo de Apolo em Delfos, inundando aquele templo grego com toneladas de ouro em presentes e oferendas. E o oráculo de Delfos, pela boca de uma jovem sacerdotisa — supostamente virgem — chamada Pítia, que já estava em transe, chapada até a alma por causa dos vapores sulfúricos vulcânicos que subiam de uma fenda no chão da sala de audiências, deu-lhe uma resposta que entraria pra história como o exemplo perfeito de armadilha oracular:
«Se Creso atravessar o rio Hális — fronteira entre a Lídia e a Pérsia — e declarar guerra aos persas, destruirá um grande império.»
Creso leu e acreditou exatamente no que queria ler e acreditar: «essa sacerdotisa (que, aliás, era uma gata pra caramba) me disse claramente que vou destruir o império persa — então a vitória é minha na certa.» E lançou-se à guerra eufórico. O que não lhe passou pela cabeça — porque a soberba muitas vezes nos cega — foi perguntar o óbvio: Ei, você aí, sacerdotisa, qual grande império eu vou destruir, o de Ciro… ou o meu? Spoiler: era o dele.
A caminho da guerra, aliás, aconteceu um episódio delicioso de engenharia antiga: ao chegar ao caudaloso rio Hális e não saber como atravessá-lo (não havia pontes), conta a tradição que o sábio Tales de Mileto — o mesmo que previu um eclipse solar com grande antecedência e soube medir, pelas sombras, a altura exata das pirâmides de Gizé — projetou pra Creso uma obra hidráulica genial: escavou um canal em semicírculo por trás do acampamento e desviou parte do rio, partindo-o em duas correntes bem mais rasas e perfeitamente vadeáveis. Um verdadeiro MacGyver do século VI a.C.
O erro fatal: dispensar o exército

Depois de uma primeira batalha meio estranha, indecisa e terminada em empate contra o exército de Ciro na Capadócia, Creso cometeu o grande erro que o perdeu: acreditando que a campanha tinha acabado por aquele ano e que os dois adversários retomariam a guerra na primavera seguinte, voltou a Sardes e dispensou todas as suas tropas mercenárias — oitenta por cento do seu exército. Mandou os soldados pra casa e ficou ali, tranquilo e com a guarda completamente baixa.
Ciro, por outro lado, era um gênio militar, e quando soube pelos seus espiões que Creso, inacreditavelmente, já tinha mandado pra casa o grosso do exército, não conseguia acreditar na sorte que lhe caíra no colo. Reuniu depressa os seus generais e disse a eles, mais ou menos: «Senhores, esse pavão, esse palhaço metido vestido com as suas penas espalhafatosas, acaba de mandar todo o seu exército pra casa. Temos diante do nariz uma ocasião única e irrepetível de tomar o reino dele. Marchemos sobre Sardes a toda velocidade, antes que essa marionete afeminada fantasiada de rei consiga reagir.» E foi assim que o exército persa percorreu os 250 quilômetros até Sardes em seis ou sete dias de marchas forçadas, apresentando-se como um muro compacto de homens sob as muralhas indefesas da cidade — bem na hora em que Creso ainda achava que estava de férias.
Imaginem a cara de Creso ao se debruçar das muralhas e ver aquele grande exército persa acampado debaixo das suas janelas. No meu livro, ponho na boca dele um lamento que resume perfeitamente a situação: «Foda-se Ciro, foda-se o oráculo de Delfos e foda-se toda a minha linhagem até o último dos meus antepassados. Olha só quantas centenas de milhares de homens eu tenho debaixo da janela. Estou perdido, estou fodido — não, "fodido" é pouco, "fodido" é apelido: estou completamente fodido, refodido, megafodido! Mas que coisa estranhíssima… O maldito Oráculo de Delfos, pela boca daquela vagaba drogada, me garantiu que eu destruiria um grande império… Caralho! Peraí um segundo! Será que o grande império que eu ia destruir é o MEU?» Touché, caro Creso, você adivinhou — mas tarde. Tarde demais.
A batalha dos camelos
Creso, desesperado, reuniu os poucos soldados que ainda lhe restavam na cidade e, vestindo ele mesmo a sua melhor armadura cerimonial bordada em ouro e prata, saiu pra dar batalha aos persas na grande planície diante de Sardes. Sua arma de destaque era uma temível cavalaria de lançadores de dardos, famosa e temida em toda a Ásia.
Mas Ciro tinha uma carta na manga, um truque sugerido pelo seu conselheiro Hárpago (um personagem fascinante de quem vou falar em outro artigo, porque a história dele — em que foi obrigado a comer o próprio filho por causa da vingança de um rei — é uma das mais brutais de todo Heródoto). O truque foi genial: Ciro reuniu todos os camelos de carga do exército, tirou deles a bagagem e os pôs na linha de frente, montados por soldados. Por quê? Porque, ao que parece, os cavalos não suportam nem o cheiro nem a visão dos camelos: se é a primeira vez que os veem, se assustam, empinam e fogem. E foi o que aconteceu: assim que a cavalaria lídia esbarrou naquela massa de camelos, os cavalos enlouqueceram, derrubaram os cavaleiros e se debandaram. A famosa cavalaria de Creso ficou inutilizada em minutos. E Sardes caiu depois de apenas catorze dias de cerco.
«Ó Sólon!»: a pira e a chuva milagrosa
Capturado Creso, Ciro decidiu lhe dar uma morte exemplar: mandou levantar uma grande pira na praça central de Sardes, ordenou que amarrassem o rei lídio em cima dela — junto com catorze jovens nobres lídios — e preparou-se pra queimar todos vivos. E aqui chega o momento culminante de toda a história.
Subido na pira, vendo-se prestes a assar feito um frango no forno, Creso lembrou-se de repente das palavras daquele «maldito grego arrogante» que anos antes o tinha avisado de que nenhum homem pode se dizer feliz até ver o fim da própria vida. E, olhando pro céu com um suspiro profundo, exclamou três vezes:
«Ó Sólon! Sólon! Sólon! Quanta razão você tinha, maldito enche-saco de um grego…»
Ciro, intrigado, mandou perguntar quem era esse «Sólon» que ele invocava na hora de morrer. E quando os intérpretes lhe traduziram a história — o aviso do sábio sobre o caráter efêmero da fortuna humana — Ciro ficou pensativo. Refletiu que ele também era um homem mortal, que a roda da fortuna gira pra todos, e que não era certo queimar vivo um homem que poucas horas antes tinha sido tão grande e poderoso quanto ele mesmo. Comovido e temeroso da vingança dos deuses, Ciro ordenou que apagassem o fogo imediatamente.
Mas as chamas, atiçadas por um vento forte, já ardiam com força e não havia jeito de sufocá-las. E então — segundo a tradição — aconteceu o milagre: de um céu limpo desabou de repente uma impressionante chuva torrencial que apagou a pira e salvou Creso das chamas. O deus Apolo, diziam, tinha enfim recompensado as toneladas de ouro que o lídio lhe oferecera em Delfos (à toa).
A culpa herdada: o pecado do tataravô
Salvo da fogueira, Creso virou conselheiro político e grande amigo de Ciro. Mas continuava muito magoado com o Oráculo de Delfos, que acusava de tê-lo enganado. Então, não podendo se mover de Sardes — Ciro o tinha proibido — mandou os seus enviados a Delfos pra reclamar, depositando as suas correntes às portas do templo e perguntando se os deuses gregos «tinham por costume ser tão ingratos com quem os venerava com toneladas de ouro».
A resposta da Pítia, desta vez, foi demolidora e reveladora. Disse-lhe, em essência: primeiro, que nem os próprios deuses conseguem escapar do destino; segundo, que Creso pagava por um crime cometido cinco gerações antes pelo seu tataravô Giges, que tinha assassinado o próprio rei pra lhe roubar o trono (outra história suculentíssima que vocês vão encontrar neste blog); terceiro, que Apolo tinha conseguido adiar em três anos a queda de Sardes e enviara a chuva que o salvou das chamas; e quarto — e essa é genial — que o oráculo tinha sido perfeitamente claro: previu que ele destruiria um grande império, e qualquer pessoa sensata teria perguntado de qual dos dois impérios se tratava. A culpa da má interpretação era só de Creso.
Touché. Aqui já não há mais nada a contestar. Só resta fechar o bico e aceitar mansamente tudo o que diz aquela víbora da Pítia. Afinal, pra que discutir, se no fim das contas a mulher está sempre chapada até as sobrancelhas — e a razão é sempre dela.
A moral do rei mais rico
A história de Creso é, no fundo, a grande lição de Heródoto sobre a condição humana: a fortuna é uma roda que gira e gira sem parar, e ninguém, por mais poderoso e rico que seja, está a salvo da queda. O homem mais rico do mundo antigo terminou amarrado a uma pira, salvo por um triz, transformado em conselheiro do próprio conquistador. «Rico como Creso», sim. Mas também «caído como Creso».
E o mais bonito é que essa parábola continua válida hoje, exatamente como há 2.500 anos. Quantos homens riquíssimos e poderosos a gente já viu desabar do mais alto? A roda nunca parou de girar. E Sólon — mesmo que, por momentos, desse vontade de estrangulá-lo — tinha toda a razão.
Se você curtiu a queda do rei mais rico da antiguidade, vai encontrar a história completa dele — e a da sua corte, das suas guerras, do oráculo trapaceiro e da ascensão do grande Ciro da Pérsia — no meu livro O Livro da Musa Clio, primeiro volume da saga Heródoto: Histórias Reloaded 2.0. Lá estão também Sólon, Adrasto, Tômiris, Aríon e todo o elenco dessa época fascinante.

