Há dois mil e quinhentos anos, um grego nascido em Halicarnasso decidiu percorrer o mundo conhecido de ponta a ponta, falar com todos os que encontrasse, tomar nota de tudo o que visse, ouvisse ou lhe contassem — e escrever tudo. O seu nome era Heródoto de Halicarnasso, e o que escreveu mudou para sempre a forma como os seres humanos se recordam do passado.
Uma criança curiosa em Halicarnasso
No ano 484 antes de Cristo, na cidade grega de Halicarnasso — uma colónia dórica na costa ocidental da atual Turquia, sob domínio persa há mais de um século —, nasceu uma criança a quem os seus pais, Licas e Drio, puseram o nome de Heródoto. Era uma criança extraordinariamente curiosa, inteligente e dotada daquela inquietação viajante que só têm os espíritos verdadeiramente livres.
O maior viajante da Antiguidade
Com os meios financeiros que a sua família abastada lhe proporcionava, Heródoto empreendeu uma viagem que nenhum grego da sua época havia sequer sonhado. Visitou toda a Grécia continental, as ilhas do Egeu, o sul de Itália, os Balcãs, o Mar Negro, a Turquia, a Síria, o Líbano, Israel, o Egito, a Líbia e toda a Pérsia. Foi em Atenas que conviveu com Péricles, o escultor Fídias e o poeta Sófocles.
Pai da História ou pai das mentiras?
A questão está aberta há séculos. O título de Pai da História foi-lhe outorgado pelo próprio Cícero, e com razão: Heródoto foi o primeiro a fazer da investigação sistemática dos factos passados uma disciplina com metodologia própria. Antes dele, só havia mitos, epopeias e propaganda real. Mas os seus críticos não tardaram a aparecer. Plutarco, quatro séculos depois, chamou-lhe sem rodeios «pai das mentiras».
Por que Heródoto continua indispensável
A resposta honesta é: as duas coisas ao mesmo tempo, e é precisamente por isso que continua insubstituível. Um historiador que apenas anota o verificável produz um registo. Um narrador que mistura dados, rumores, mitos e observações próprias produz algo muito mais difícil de fabricar: uma imagem viva do mundo antigo. Sem Heródoto, nunca teríamos ouvido falar de Candaules, o rei pervertido que perdeu a vida por mostrar a sua mulher nua ao seu guarda-costas.