No verão de 1565, numa ilha árida de apenas 316 km² no centro do Mediterrâneo, uns poucos centenas de cavaleiros e soldados cristãos detiveram o maior esforço militar do Império Otomano. O que aconteceu ali naqueles quatro meses de fogo, sangue e fé cega não apenas salvou Malta: salvou a Europa.
Solimão I e a aposta do século
Na primavera de 1565, o sultão Solimão I o Magnífico — o mesmo homem que havia conquistado Rodes, Budapeste e Bagdade — lançou sobre a pequena ilha de Malta a armada mais poderosa que o Mediterrâneo havia visto em gerações: duzentos navios de guerra, quarenta mil homens, os melhores generais do Império Otomano.
Jean Parisot de La Valette: o velho Leão
Frente a quarenta mil soldados otomanos, Malta podia opor apenas cerca de oito mil homens: uns seiscentos Cavaleiros da Ordem e entre sete e oito mil soldados regulares, mercenários e milicianos malteses. O homem que devia liderar essa defesa impossível era o Grão-Mestre Jean Parisot de La Valette, nobre cavaleiro francês de setenta e um anos, que há mais de meio século combatia o Islão em terra e no mar.
O calvário do forte Sant'Elmo
O cerco começou a 18 de maio de 1565. Os turcos escolheram atacar primeiro o forte Sant'Elmo. No seu cálculo, Sant'Elmo cairia em quatro ou cinco dias. Durou quarenta dias. Durante mais de um mês, os defensores do forte — na sua maioria cavaleiros voluntários que sabiam que não sairiam vivos — resistiram a bombardeamentos de uma intensidade que os contemporâneos descreveram como dantesca.
O Grande Socorro e a retirada
Finalmente, na noite de 6 para 7 de setembro, D. García de Toledo desembarcou sorrateiramente o Grande Socorro espanhol: cerca de nove mil soldados frescos. No dia 9 de setembro não havia já nenhum turco nas trincheiras. Os otomanos tinham perdido entre vinte e vinte e cinco mil homens. A «armada invencível» do sultão Solimão I regressou a Istambul derrotada, humilhada e dizimada.
Por que Malta mudou a história do Ocidente
A vitória de Malta em 1565 não foi apenas uma façanha militar — foi um ponto de viragem psicológico e estratégico. Demonstrou que o avanço otomano tinha um limite. Inspirou a formação da Liga Santa que, seis anos depois, infligiria aos turcos a derrota definitiva em Lepanto (7 de outubro de 1571), fechando para sempre a ameaça de uma conquista islâmica do Mediterrâneo ocidental.
Fontes e referências
- Francesco Balbi di Correggio, La verdadera relación de todo lo sucedido en la isla de Malta (Barcelona, 1568) — testemunha ocular do cerco.
- Giacomo Bosio, Dell'Istoria della Sacra Religione et Illustrissima Militia di San Giovanni Gierosolimitano.
Neste artigo NÃO há ficção
É contado por uma testemunha que combateu nele. Francesco Balbi di Correggio deixou por escrito o desembarque otomano de maio de 1565, a desproporção de forças diante do exército de Solimão, o Magnífico, a queda de Santo Elmo, a resistência do Birgu e de Senglea sob Jean Parisot de la Valette, a chegada do Grande Socorro de dom García de Toledo em setembro e a retirada turca; a crônica da Ordem, de Giacomo Bosio, corrobora. Os números de combatentes dançam entre as fontes cristãs e as otomanas, como em toda guerra, e aqui se usam os mais aceitos. Os diálogos, as cenas de intimidade e o pulso da narração são do romancista; os fatos, do arcabuzeiro que os viveu. A voz literária é de David S. Matrecano, cujo romance Malta 1565 se ergue sobre esses mesmos fatos.

