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As Cruzadas

Os Assassinos (Hashshashin): a seita do Velho da Montanha que aterrorizou reis e sultões

Uma ordem secreta empoleirada em fortalezas inexpugnáveis de alta montanha, cujos membros matavam suas vítimas à luz do dia sem temer a morte. Do nome deles vem a nossa palavra «assassino» e o videogame Assassin's Creed · séculos XI-XIII

27 jun 2026 · 10 min
Vista da fortaleza de montanha dos Assassinos ao entardecer, com um agente encapuzado contemplando o vale nevado.

Imagine uma organização ultrassecreta de matadores de aluguel encharcados de fanatismo religioso, tão temidos que, apenas deixando como advertência um de seus punhais sobre o travesseiro de um rei adormecido, no dia seguinte conseguiam dobrar por completo a sua vontade e fazer com que esse rei, cagado de medo, fizesse tudo o que eles mandavam. Uma perigosa seita de muçulmanos xiitas (daqueles que ainda hoje andam sempre vestidos de preto), cujos membros eram tão devotados ao seu líder e tão chapados de haxixe que se lançavam à morte sem piscar para cumprir uma missão. Estamos falando dos Assassinos, os Hashshashin, a ordem fundada no ano 1090 d.C. por Hassan-i Sabbah, o lendário «Velho da Montanha», e que durante quase dois séculos semeou o terror entre todos os poderosos do Oriente Próximo, fossem eles líderes muçulmanos ou cruzados cristãos. Em um dos meus quatro livros sobre as cruzadas, O Amanhecer dos Templários, levanto a hipótese —para mim bastante razoável— de como o primeiro rei cristão de Jerusalém, Godofredo de Bulhão, e seu primo, o conde Guarniero de Grez, podem ter sido envenenados por um desses matadores durante um almoço oficial oferecido pelo emir de Cesareia Marítima, no litoral da Palestina (hoje em Israel, entre as cidades de Tel Aviv e Haifa).

É um fato que, pouco depois daquele almoço oferecido pelo emir de Cesareia Marítima, ambos os nobres francos começaram a se sentir mal e logo morreram. Primeiro faleceu o rei e depois seu primo que, felizmente, mal teve tempo material de mandar chamar às pressas a Jerusalém o irmão de Godofredo, Balduíno de Boulogne, naquele momento senhor do Condado de Edessa, para que viesse correndo tomar o poder na cidade santa antes que outro perigoso pretendente se apresentasse à porta, como por exemplo o conde rival Raimundo de Saint-Gilles. Acompanhe-me a conhecer uma das organizações mais fascinantes e temíveis da história.

Um ramo secreto do islã

Os Assassinos foram uma seita pertencente a um ramo minoritário do islã xiita, os nizaritas ismaelitas. Surgiram no fim do século XI, numa época de grande fragmentação e conflito no mundo islâmico. Seu fundador, um homem brilhante e carismático —embora certamente também cruel e sanguinário— chamado Hassan-i Sabbah, compreendeu algo genial: um grupo pequeno, sem exército nem território extenso, não podia enfrentar abertamente os grandes impérios que o cercavam. Mas podia se tornar temível de outra maneira muito mais sutil, insidiosa e tremenda.

A estratégia de Hassan-i Sabbah foi, de certo modo, revolucionária: em vez de exércitos, ele empregaria o assassinato seletivo de figuras inimigas-chave. Para que lutar contra todo um exército, se para semear o caos e a derrota bastava eliminar o general ou o príncipe que o comandava? Essa tática de eliminar líderes concretos para alcançar objetivos políticos, semeando o terror entre os poderosos, tornou os Assassinos enormemente influentes apesar de seu escasso número. Pois todo mundo os temia —tanto os líderes muçulmanos, emires e sultões, quanto os príncipes e reis cristãos.

As fortalezas construídas no topo do mundo

Para sobreviver cercados por inimigos muito mais poderosos, os Assassinos se entrincheiraram numa rede de castelos e fortalezas construídos em lugares praticamente inacessíveis, quase sempre no alto das montanhas mais altas e escarpadas. A mais famosa dessas fortalezas foi a de Alamut, nas montanhas do maciço de Elburz, ao norte da Pérsia —um ninho de águias (é exatamente isso que significa o seu nome), quase impossível de conquistar, empoleirado sobre um penhasco vertiginoso a 2163 metros de altitude.

A partir dessas fortalezas inexpugnáveis, o líder da seita (a quem as fontes cruzadas chamaram de «o Velho da Montanha») dirigia as operações de seus agentes, que se infiltravam nas cortes e cidades de seus inimigos. As fortalezas eram, ao mesmo tempo, refúgio, centro de poder e símbolo: por mais que um rei ou um sultão quisesse acabar com eles, alcançá-los em seus cumes era quase impossível, e os caminhos estreitos e íngremes que levavam até elas eram terreno perfeito para armar armadilhas e emboscadas mortais para qualquer exército que quisesse subir. Sempre que aqueles hipotéticos soldados não fossem mortos antes pelo frio tremendo que faz lá em cima durante quase o ano todo…

Agentes da morte que não temiam a morte

Um fida'i golpeia sua vítima com um punhal à luz do dia, num mercado lotado: a mensagem era que ninguém estava a salvo em lugar nenhum.
Um fida'i golpeia sua vítima com um punhal à luz do dia, num mercado lotado: a mensagem era que ninguém estava a salvo em lugar nenhum.

O que tornava os Assassinos verdadeiramente aterrorizantes era a entrega absoluta de seus agentes. Esses homens, chamados fida'in («os que se sacrificam»), estavam dispostos a morrer para cumprir sua missão em nome de Alá todo-poderoso, do profeta Maomé ou de seu líder espiritual. Mas espera um momento —por que cacete tudo isso me soa tão familiar? Ah, sim: porque hoje em dia, mil e tantos anos depois, os radicais islâmicos do ISIS, da Al-Qaeda, do Estado Balsâmico de Módena 🙂 ou do Boko Haram fazem exatamente a mesma coisa.

O modus operandi da seita era o seguinte: infiltravam-se pacientemente, às vezes durante anos, fingindo ser ferreiros, humildes pastores, cozinheiros, verdureiros ou garçons, ganhando assim a confiança da vítima e de seu círculo mais próximo (alguns chegaram até a se casar e formar famílias com filhos para reforçar o disfarce), até que chegava o momento de agir. E quando o faziam, golpeavam conforme as circunstâncias, da forma mais chocante, visível e barulhenta possível —com fogo, punhais e espadas— ou no mais absoluto silêncio com venenos potentes.

Embora, em geral, os matadores Assassinos costumassem matar suas vítimas com um punhal em público e à luz do dia —por exemplo, numa mesquita ou igreja lotada, num mercado ou em plena corte— garantindo que todos vissem e captassem a mensagem. E a mensagem era clara: ninguém, nenhum de vocês, por mais poderoso que seja, está a salvo, em lugar nenhum. E como seus matadores nem sequer esperavam conseguir escapar do local do crime nem sair vivos de lá, não temiam a morte e eram quase impossíveis de deter. Essa combinação de fanatismo, paciência e desprezo pela própria vida os transformou no pesadelo de todos os poderosos da região.

A lenda do paraíso (e a origem do nome)

O lendário jardim-paraíso do Velho da Montanha, com suas huris e fontes: a lenda que, segundo Marco Polo, garantia a obediência cega dos fida'in.
O lendário jardim-paraíso do Velho da Montanha, com suas huris e fontes: a lenda que, segundo Marco Polo, garantia a obediência cega dos fida'in.

Sobre o porquê dessa entrega total surgiu uma lenda famosíssima, recolhida mais tarde pelo célebre viajante veneziano Marco Polo quando por ali passou, entre outros, em sua viagem à China. Segundo essa história, o Velho da Montanha teria drogado até as tampas os seus jovens seguidores com haxixe e ópio —drogas muito potentes, sobretudo a segunda, e muito comuns naquela parte do mundo— e os teria introduzido, enquanto ainda estavam meio adormecidos pela onda, num jardim secreto e paradisíaco repleto de iguarias, fontes, jardins, luxo à beça e belas mulheres seminuas (as chamadas huris), fazendo-os acreditar que aquele era o paraíso que os esperava se obedecessem. Depois os tirava de lá e lhes dizia que só voltariam àquele paraíso se morressem cumprindo as suas ordens. Assim garantia a obediência cega e o desprezo deles pela morte. Igualzinho a hoje, vê só.

Dessa lenda vem, supostamente, o nome. Diz-se que a palavra «Hashshashin» derivaria de «hashish» (haxixe), uma das drogas que lhes teriam sido fornecidas. De «Hashshashin» passou, através dos cruzados que levaram o termo à Europa, para «assassin» em francês e inglês e «asesino-assassino» em espanhol e italiano. Embora a origem exata da palavra ainda seja discutida pelos linguistas, o certo é que a nossa palavra para designar quem mata por encomenda nasce, justamente, do nome dessa seita. Nada mau como legado linguístico.

O terror de cruzados e sultões (e o seu fim)

Os Assassinos não distinguiam religiões na hora de escolher os alvos: mataram numerosos príncipes e dignitários muçulmanos (seus rivais dentro do próprio islã), mas também destacadas figuras cruzadas. Uma de suas vítimas mais célebres foi o marquês italiano Conrado de Monferrato, recém-eleito rei de Jerusalém e apunhalado em plena rua em Tiro, no atual Líbano, em 1192. Até o grande sultão Saladino sofreu vários atentados dos Assassinos e, segundo se conta, depois de encontrar um punhal e um bilhete ameaçador ao lado da cama, preferiu negociar um acordo com eles e pagar-lhes certa quantidade de ouro a continuar enfrentando um inimigo tão invisível, onipresente e inalcançável.

O fim dos Assassinos chegou no século XIII, e não pelas mãos dos cruzados nem dos sultões ou emires locais, mas de uma força nova, imparável e muito mais cruel do que eles, que arrasou todo o Oriente: os mongóis. As hordas assassinas mongóis de Gengis Khan, Ögödei Khan, Güyük Khan e Hülegü Khan, que não faziam cerimônia, conquistaram e arrasaram uma a uma todas as fortalezas dos Assassinos, incluindo a lendária fortaleza de Alamut, por volta de 1256.

A terrível seita que aterrorizara reis e poderosos durante um século e meio foi praticamente exterminada por invasores asiáticos ainda mais ferozes e impiedosos do que eles.

Os Assassinos ficaram para sempre no imaginário coletivo como o arquétipo da sociedade secreta letal: as fortalezas nas montanhas, os agentes fanáticos, o líder venerável e misterioso, o golpe impossível de prever. Sua lenda inspirou romances, filmes e até videogames famosíssimos como o célebre Assassin's Creed «The Ezio Collection», de que tanto gosto.

E tudo isso, caros leitores, partiu de um punhado de homens empoleirados em umas montanhas da Pérsia que descobriram que o medo, bem administrado, pode ser mais poderoso do que qualquer exército. Se você ficou fascinado, o turbulento mundo das Cruzadas vai encontrar por inteiro na minha saga A História das Oito Cruzadas. A História com H maiúsculo como nunca antes lhe contaram.

Fontes e referências

Neste artigo NÃO há ficção

Os fatos —a existência da seita nizarita ismaelita dos Assassinos, seu fundador Hassan-i Sabbah, a estratégia do assassinato seletivo, as fortalezas de montanha como Alamut, os agentes fida'in, o assassinato de Conrado de Monferrato e a destruição da seita pelos mongóis por volta de 1256— são fatos históricos documentados. O artigo assinala explicitamente que a lenda do jardim-paraíso com mulheres nuas (recolhida por Marco Polo em seu livro), assim como a origem do nome da seita a partir do haxixe, são matéria lendária (por mais provável que a coisa seja), temas ainda muito discutidos pela comunidade histórica, e não fatos provados a 100%. Os comentários e as apreciações do narrador fazem parte da voz literária e artística pessoal do autor deste artigo e dos livros nele mencionados, David S. Matrecano.

Perguntas frequentes

Quem eram os Hashshashin ou Assassinos?

Uma seita do ramo nizarita ismaelita do islã xiita, fundada por Hassan-i Sabbah no fim do século XI. Em vez de exércitos, empregavam o assassinato seletivo de figuras-chave —emires, sultões, príncipes cruzados— para se impor pelo terror apesar de seu escasso número.

De onde vem a palavra «assassino»?

Supostamente do termo «hashshashin», ligado ao haxixe que, segundo a lenda, era administrado aos seus agentes. Os cruzados levaram a palavra à Europa, onde virou «assassin» (francês e inglês) e «assassino» (português). A origem exata ainda é discutida pelos linguistas.

O que era a fortaleza de Alamut?

O «ninho de águias» dos Assassinos, empoleirado a 2163 metros nas montanhas de Elburz, ao norte da Pérsia. Quase inexpugnável, serviu de refúgio, centro de poder e símbolo da seita até a sua queda diante dos mongóis por volta de 1256.

Quem era o «Velho da Montanha»?

O nome que as fontes cruzadas davam ao líder da seita (Hassan-i Sabbah e seus sucessores), que dirigia a partir das fortalezas os fida'in, os agentes dispostos a morrer para cumprir sua missão.

Como terminou a seita dos Assassinos?

Não foi derrotada nem pelos cruzados nem pelos sultões, mas pelos mongóis. As hordas de Hülegü Khan arrasaram suas fortalezas uma a uma, incluindo Alamut, por volta de 1256, exterminando praticamente a seita.

✠ Leitura recomendada ✠

O Sangue de Jerusalém · Vol. 2

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David S. Matrecano
✠ David S. Matrecano ✠
Ibiza, junho de 2026

Escritor italiano radicado em Ibiza. Autor das sagas As Oito Cruzadas, Heródoto · Histórias Reloaded e Roma Stupor Mundi.

DM
Per Aspera, Ad Astra.
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