Europa Ocidental, ano de 1095. Fechem os olhos, só por um momento, e imaginem um homenzinho humilde e magérrimo, vestindo um hábito eclesiástico de lã grossa marrom preso por um cinto de corda, nos pés umas velhas sandálias de couro gastas de tanto caminhar, e pendurado no pescoço um grande crucifixo de madeira; o homem, montado num humilde burro, está há semanas sem se lavar, percorrendo incansavelmente os caminhos mais recônditos e perigosos da Europa para difundir o verbo de Cristo e as palavras do papa. E agora imaginem que esse mesmo homenzinho, só com a força dessas palavras, foi capaz de pôr em marcha um movimento de dezenas de milhares de pessoas, de arrancá-las de suas casas, choças, castelos e fazendas para lançá-las numa viagem a pé de milhares de quilômetros (4500, para ser exato) rumo a Jerusalém. Pois é, caros leitores, esse homem existiu de verdade e se chamava Pedro de Amiens, mais conhecido nos livros de história como Pedro o Eremita. Um dos personagens mais fascinantes e desconcertantes do despontar das cruzadas, e sua história merece ser contada.
O papa acende o pavio
Para entendê-lo, precisamos voltar ao ano de 1095. Naquele ano, no concílio ecumênico de Clermont, uma grande assembleia de padres, cardeais e bispos, o papa Urbano II proferiu um dos discursos mais influentes da história europeia. Convocou todos os cavaleiros cristãos da Europa a pegar em armas para ir ao Oriente Médio e libertar Jerusalém e os Lugares Santos da cristandade do sufocante domínio muçulmano; pois naquele momento a Terra Santa estava em mãos islâmicas, e estes, como vocês podem imaginar, não eram nada gentis com os cristãos que ainda viviam por lá. Em troca, aquele papa esperto lhes prometia o perdão total de todos os seus crimes e pecados na terra e, lá no céu, lhes assegurava um lugar privilegiado sentados à direita de nosso senhor Jesus Cristo. A resposta ao seu chamado foi um imenso clamor em escala continental, que se cristalizou sob um lema destinado a entrar para a história: «Deus lo Vult, Deus o quer!».
Mas o próprio papa, naquele momento, foi pego completamente de surpresa… Pois o pontífice pensava mais em enviar uma expedição militar ordenada de cavaleiros e nobres, organizada e comandada pela nata da aristocracia europeia. Essa seria, idealmente, a Primeira Cruzada «oficial» que partiria mais tarde, um ano depois, em 1096. O que ninguém esperava é que, poucas semanas depois, muito antes de os nobres, os cavaleiros e os militares profissionais estarem prontos, algo bem diferente se pusesse em marcha rumo a Jerusalém, muito mais popular e infinitamente mais caótico: «a Cruzada dos Pobres». E o responsável por tudo isso foi justamente o nosso Pedro o Eremita.
O poder hipnótico de um homem humilde
Pedro o Eremita foi um monge pregador do norte da França, enormemente popular durante a Idade Média, pois havia nascido em 1050 em Amiens, uma belíssima cidade situada a 120 quilômetros ao norte de Paris, no atual departamento do Somme, uma região francesa outrora conhecida como Picardia. As crônicas o descrevem como um homem de aparência ascética e impressionante, descarnado e de olhos profundos, sempre vestido com extrema humildade para se manter fiel ao seu voto de pobreza. Deslocava-se de aldeia em aldeia num burro velhíssimo que, havia mais de uma década, era seu fiel companheiro de viagem. Mas o nosso Pedro tinha um dom descomunal: sua oratória mística e explosiva, pois falava ao povo simples com uma paixão e uma eloquência que magnetizavam e eletrizavam as multidões.
Enquanto os nobres se organizavam com toda a calma, Pedro percorria incansavelmente aldeias e vilas pregando a cruzada à gente comum: camponeses, artesãos, pobres, servos da gleba (camponeses escravos presos a vida inteira a um pedaço de terra), mulheres, idosos, crianças. Gente sem nenhuma formação militar, sem armas decentes, sem dinheiro nem provisões. E ele os incendiava com suas palavras. Por onde passava, multidões inteiras largavam tudo e se juntavam a ele para marchar rumo a Jerusalém. A crônica nos conta que o povo simples já o venerava como um santo, a ponto de arrancarem os pelos do seu burro para guardá-los como relíquias. Imaginem o nível de fervor e misticismo que aquele homenzinho era capaz de gerar.
A Cruzada Popular: o desastre anunciado
Nasceu assim o que se conhece como Cruzada Popular, ou Cruzada dos Pobres: uma massa imensa e desorganizada de muitos milhares de pessoas que, sob a liderança de Pedro o Eremita e de um cavaleiro originário de Boissy-Sans-Avoir, chamado Gauthier, também conhecido como Gualtério Sem-Haveres, se lançou pelas estradas rumo ao Oriente na primavera de 1096, muitos meses antes dos vários exércitos profissionais reunidos pelos principais nobres europeus.
E foi, digamos com todas as letras, uma catástrofe do começo ao fim. Aquela multidão, sem disciplina nem mantimentos, deixou um rastro de problemas, conflitos e morte por onde passava na Europa Oriental: violências e saques para se alimentar, choques com as populações locais e, num dos episódios mais vergonhosos, os terríveis massacres de comunidades judaicas, com entre 12.000 e 15.000 judeus de todas as idades assassinados em várias cidades do Reno, em Praga e na Hungria, perpetrados por bandos dispersos de cruzados alemães —veja que coincidência— de alguma forma associados, mas que não faziam parte oficial, desse movimento liderado pelo Eremita. Ou seja, a missão de Pedro e dos seus era chegar a Jerusalém e libertá-la, não trucidar pobres judeus bem no meio da Europa. Seja como for, foi um começo bastante sinistro e trágico para uma empreitada que se apresentava como sagrada e abençoada por Deus todo-poderoso.
O fim na Ásia Menor
Contra todos os prognósticos, boa parte daquela massa humana conseguiu descer por toda a Europa Oriental e chegar às portas de Constantinopla. O imperador bizantino Aleixo I Comneno, que esperava a chegada de milhares de cavaleiros e soldados profissionais e disciplinados que o papa lhe prometera para combater os invasores muçulmanos turcos, deparou-se com aquela maré de pobres europeus famélicos, conflituosos e militarmente inexperientes e, de cara, não soube bem o que fazer com eles. Para se livrar deles e poupar males maiores à sua cidade, em 6 de agosto de 1096, seguindo o conselho do seu Grão-Primicério, o general Tatikios, uma espécie de conselheiro privado de confiança, mandou-os passar às pressas para o outro lado do estreito do Bósforo, na Ásia Menor, bem no meio de uma zona de guerra em mãos dos impiedosos turcos seljúcidas do sultão Kilij Arslan (que se pronuncia «Kilish» e significa, literalmente, «a Espada do Leão»).
E ali, sem Pedro presente no momento decisivo (havia voltado a Constantinopla para pedir ajuda), a massa desorganizada e indisciplinada embrenhou-se em território inimigo em busca de saque. Os turcos seljúcidas, guerreiros experientes, armaram-lhes uma emboscada e os aniquilaram quase por completo num terrível massacre. Dezenas de milhares daqueles pobres iludidos morreram sem sequer ter visto Jerusalém. A Cruzada Popular havia terminado num desastre absoluto.
O sobrevivente que viu Jerusalém de verdade
E aqui vem a reviravolta final, o que faz de Pedro um personagem tão romanesco. Porque ele sobreviveu. Quando, meses depois, chegou enfim o grande exército da Primeira Cruzada «oficial», o dos nobres e cavaleiros bem armados, Pedro o Eremita juntou-se a ele, agora num papel bem mais modesto e secundário. E, com aquela expedição, o velho pregador acompanhou a marcha através da Ásia Menor. Mas, antes de Jerusalém, ainda o esperava o inferno de Antioquia.
Antioquia: quando até o profeta vacilou
Pois o duríssimo e longuíssimo cerco de Antioquia (1097-1098) foi um inferno de fome, frio, doença e desespero que se arrastou mês após mês sem um único lampejo de esperança. O exército cruzado se esvaía em sangue, e as deserções tornaram-se uma hemorragia incontível: soldados fugindo à noite, às dezenas, às centenas, arriscando a forca só para escapar daquela armadilha. E aqui vem um dos episódios mais humanos e menos conhecidos do nosso personagem. Porque, caros leitores, na madrugada de 7 de janeiro de 1098, o próprio Pedro o Eremita —o homem que tinha acendido toda aquela loucura, amigo pessoal do papa Urbano II— desmoronou. E fugiu. Desertou do acampamento às escondidas, na companhia de um nobre franco, Guilherme de Melun, apelidado de «o Carpinteiro», nada menos que primo do rei da França. Mas os dois fugitivos não foram longe: o implacável Tancredo de Altavila, que tinha um dom natural para caçar homens, alcançou-os a poucos quilômetros do porto de São Simeão, quando já procuravam um navio que os levasse para casa. «Deus nos abandonou, Tancredo, conforme-se!», gritou-lhe Pedro em sua defesa. Não colou. Foram levados de volta ao acampamento em meio à vergonha e ao escândalo geral. Guilherme o Carpinteiro, o príncipe Boemundo de Taranto o moeu de pancadas e o humilhou até rebatizá-lo de «Guilherme o Covarde». Pedro, ao contrário, seu velho amigo, o legado pontifício Ademar de Monteil, o perdoou com uma simples penitência. Vocês sabem como é: a lei, com os inimigos a gente aplica com rigor, e com os amigos a gente interpreta com indulgência.
A traição que quase cancelou tudo
E, como se a deserção do próprio Pedro não bastasse, naqueles mesmos dias ocorreu o episódio mais grave de toda a campanha, um que quase cancelou a cruzada inteira muito antes de chegar a Jerusalém. Outro dos grandes senhores, o conde Estêvão de Blois —que, diga-se de passagem, só estava ali porque sua esposa Adela praticamente o obrigara a se alistar à base de cobranças—, também desertou do cerco. Mas Estêvão fez algo infinitamente pior do que simplesmente fugir. Na sua fuga rumo à costa, junto com outro desertor, Guilherme de Grandmesnil, deu de cara com o exército imperial do imperador bizantino Aleixo I Comneno, que marchava justamente para socorrer os cruzados sitiados em Antioquia. E Estêvão, grande amigo e admirador do imperador, convencido de que a cidade já tinha caído e que todos os seus antigos companheiros estavam mortos, cavalgou até Filomélio para convencer Aleixo a dar meia-volta. Conseguiu. Em 16 de junho de 1098, o imperador ordenou a retirada e abandonou os cruzados à própria sorte. Aquele exército de socorro, esperado como chuva na seca, jamais chegaria. A notícia caiu como uma bomba sobre Antioquia: os cruzados, famintos e encurralados, sentiram-se definitivamente abandonados por Deus e pelos homens. Provavelmente não houve má-fé naqueles dois covardes —acreditavam sinceramente que tudo estava perdido—, mas sua «sacanagem» monumental não só deixou na mão oitenta mil cristãos no pior momento imaginável; serviria mais tarde a Boemundo de Taranto como o álibi perfeito para ficar com Antioquia e nunca devolvê-la ao Império Bizantino, exatamente como tinha jurado. A História se escreve, muitas vezes, com essas misérias.
A embaixada mais absurda da história
E foi justamente naquele clima de desespero absoluto —abandonados pelo imperador e com o colossal exército do emir turco de Mossul, Kerbogha —duzentos mil homens—, já às portas— que Pedro ainda tinha um trunfo na manga para se redimir, e que trunfo. Os cruzados, contra toda a lógica, decidiram tentar uma negociação desesperada. E quem escolheram como embaixador para a missão mais perigosa imaginável? Ora, o pequeno frade sujo e esfarrapado do burro, justamente para que lavasse o seu nome manchado. Assim Pedro o Eremita, acompanhado de um intérprete chamado Herluin e empunhando uma enorme bandeira branca, apresentou-se na luxuosa tenda do emir —almofadas de seda, tapetes persas de Tabriz e, em pleno mês de junho a quarenta graus, uma jarra de água com cubos de gelo, não me perguntem como. E ali, diante de Kerbogha e de todos os seus generais, que o olhavam com um nojo mal disfarçado, o humilde monge disparou, com uma fleuma quase britânica e uma ponta de deboche, o ultimato mais descarado de toda a história militar: exigiu que Kerbogha se rendesse. Que o exército muçulmano de duzentos mil homens depusesse as armas e se retirasse «para salvar a própria vida». Imaginem a cena: o lado sitiado, faminto e apavorado, exigindo do lado vencedor a rendição incondicional. Kerbogha quase se engasgou com o chá de tanto rir e lhe mostrou, divertido, os milhares de correntes e grilhões que tinha mandado vir de Bagdá para escravizá-los a todos. Mas Pedro, sem se abalar nem um pouco, foi além: anunciou, seríssimo, que os cristãos tinham encontrado um objeto mágico e milagroso, enterrado havia mil anos, que os tornaria invencíveis: a Sagrada Lança de Cristo. As gargalhadas turcas tornaram-se então ensurdecedoras. A negociação, como era de se esperar, terminou num fracasso absoluto, com Kerbogha jurando que decapitaria Pedro com as próprias mãos. E, no entanto, no dia seguinte, 28 de junho de 1098, os cruzados —fanatizados justamente pela fé cega naquela Lança— saíram de Antioquia e derrotaram, contra todos os prognósticos, o imenso exército de Kerbogha. A História, às vezes, escreve os roteiros mais inverossímeis.
Ou seja: o homem que tinha acendido o pavio de todo aquele movimento, cuja primeira tentativa terminara em massacre, viveu o bastante para ver realizado, ao menos em parte, o sonho que havia pregado. Pôde entrar na Cidade Santa pela qual tantos dos seus seguidores tinham morrido. Depois voltou à Europa, fundou um mosteiro e morreu, já velho, em relativa paz.
A figura de Pedro o Eremita resume como nenhuma outra a dupla face das cruzadas: o fervor sincero e o desastre sangrento, a fé que move montanhas e o fanatismo que arrasa, o idealismo mais puro e a tragédia mais absurda. Um homenzinho num burro que, só com suas palavras, mudou o rumo da história. Para o bem e para o mal.
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Per Aspera, Ad Astra.
✠ David S. Matrecano
Ibiza, maio de 2026
Fontes e referências
- Crônicas da Primeira Cruzada: Anônimo, Gesta Francorum; Alberto de Aix; Guiberto de Nogent; Ana Comnena (Alexíada), que descreve a chegada de Pedro a Constantinopla.
- Historiografia moderna: Sir Steven Runciman, História das Cruzadas (A History of the Crusades, 3 vols., 1951-1954), obra clássica de referência fundamental sobre o período.
- Contexto: concílio de Clermont (1095), discurso de Urbano II, a Cruzada Popular de 1096 e sua destruição em Civetot (Ásia Menor).
Neste artigo NÃO há ficção
Os fatos —a pregação de Pedro o Eremita, a Cruzada Popular de 1096, os tumultos e os massacres de comunidades judaicas no Reno associados ao movimento, a chegada a Constantinopla, a passagem para a Ásia Menor, o aniquilamento da massa popular pelos turcos, a sobrevivência de Pedro, que depois se juntou à cruzada dos nobres, sua tentativa de deserção durante o cerco de Antioquia ao lado de Guilherme de Melun «o Carpinteiro», a deserção do conde Estêvão de Blois e a consequente retirada do exército bizantino de Aleixo I Comneno desde Filomélio, sua embaixada diante do emir Kerbogha de Mossul e sua chegada final a Jerusalém— estão documentados nas crônicas da época citadas. Os massacres de judeus são mencionados como o fato histórico documentado que foram. Os comentários e apreciações do narrador fazem parte da voz literária pessoal do autor David S. Matrecano.