Por volta do ano 1119, numa Jerusalém que estava em mãos cristãs havia apenas duas décadas, nove cavaleiros pediram audiência ao rei Balduíno II e lhe apresentaram a proposta mais estranha que um monarca medieval já tinha ouvido: queriam se fazer monges —pobreza, castidade, obediência, a vida inteira entregue a Deus— e ao mesmo tempo conservar a espada. E usá-la. Qualquer conselheiro sensato teria lhes mostrado a porta. Balduíno disse que sim. O que saiu daquela audiência foi a ordem religiosa mais poderosa, mais rica e mais misteriosa da história do Ocidente. E o homem que a concebeu se chamava Hugues de Payens. Vamos conhecê-lo, porque já adianto uma coisa: o homem é bem melhor que o mito.
Um cavaleiro de Champagne
Nasceu por volta de 1070 na região de Champagne, no nordeste da França, no seio de uma família da pequena nobreza. Pequena nobreza significa exatamente o que parece: um castelo modesto, terras que davam para viver sem luxos e um sobrenome que não abria nenhuma porta importante.
Mas Hugues tinha algo que valia mais que um título: tinha um primo. E não um primo qualquer. Hugo I, conde de Champagne, um dos senhores feudais mais poderosos da Europa, um homem que na prática manejava mais recursos que muitos reis. Os dois Hugos compartilhavam o nome, o sangue e —isto é o decisivo— uma mesma inquietação espiritual que não se encaixava de todo na vida que lhes coubera.
Em 1104, primos e amigos, empreenderam juntos a viagem a Jerusalém. E aqui convém parar, porque essa viagem mudou tudo.
O que Hugues viu na Terra Santa não foi a Cidade Santa dos sermões. Foi um reino recém-conquistado que se sustentava com alfinetes, cercado de inimigos por três lados, e caminhos de peregrinação que eram simplesmente armadilhas mortais. Os peregrinos desembarcavam em Jafa cheios de fé e morriam às dezenas nos sessenta quilômetros que separavam o porto de Jerusalém, degolados por bandos que conheciam cada barranco do caminho. Tinham cruzado meio mundo para rezar diante do Santo Sepulcro e eram mortos a um dia de distância da meta.
Aquilo ficou gravado nele. A semente de tudo o que veio depois foi plantada nesses caminhos.
E há mais um dado, um que a história costuma deixar passar e que a mim parece a chave do personagem: Hugues de Payens era viúvo e tinha uma filha. Repare no que isso significa. O fundador da ordem monástico-militar mais célebre do mundo não era um jovem exaltado fugindo da vida sem tê-la provado. Era um homem maduro que havia conhecido o casamento, a paternidade, a perda e a solidão que vem depois. Quando escolheu consagrar-se a algo maior que ele mesmo, sabia perfeitamente a que estava renunciando. Essa escolha, feita de olhos abertos, vale dez vezes mais que qualquer fervor juvenil.
Nove homens para todos os caminhos da Terra Santa
A fundação do Templo é uma história de audácia calculada, e eu explico.
Por volta de 1119, Hugues reuniu oito companheiros de confiança —entre eles seu cunhado Godofredo de Saint-Omer— e se apresentou diante de Balduíno II com uma missão concreta: proteger as rotas de peregrinação entre Jafa e a Cidade Santa.
Vamos colocar isso em perspectiva, porque senão não se percebe o descaramento. Nove homens. Para vigiar todos os caminhos de um reino em guerra. É como se hoje nove voluntários se oferecessem para garantir a segurança de todas as estradas de um país inteiro. Qualquer um teria rido. Balduíno não riu: aceitou. Em parte porque a necessidade era desesperada e em parte porque aqueles nove não eram aventureiros de passagem, mas veteranos com anos de Ultramar nas costas e padrinhos muito sérios na Europa.
O rei lhes cedeu uma ala do próprio palácio, erguido sobre a Esplanada do Templo, justamente onde a tradição situava os estábulos do rei Salomão. E daí tiraram o nome com que passariam à história: Pauperes commilitones Christi Templique Salomonici — os Pobres Companheiros de Cristo e do Templo de Salomão. Os Templários.
O «pobres» não era retórica. Seu primeiro selo os representava como dois cavaleiros montados num único cavalo, porque no início não dava nem para uma montaria por cabeça. Guardem essa imagem, porque dentro de um século esses mesmos «pobres companheiros» serão os banqueiros da Europa e emprestarão dinheiro aos reis. A história tem esse senso de humor.
Nove anos de silêncio
E agora vem a parte que fez correr mais tinta que todas as outras juntas.
Entre a fundação, por volta de 1119, e o Concílio de Troyes de 1129, onde a ordem recebeu sua regra oficial, medeiam nove anos dos quais não sabemos praticamente nada. Nove cavaleiros instalados sobre a Esplanada do Templo, no lugar mais carregado de história sagrada do planeta, e as crônicas mal os mencionam. O que faziam? Patrulhavam caminhos, como haviam prometido? Escavavam sob o Templo, como sustenta a lenda? E procurando o quê? A Arca da Aliança? O Santo Graal? Documentos que a Igreja preferiria não ver à luz?
Vou ser honesto com você, porque nesta casa não enganamos ninguém: a historiografia séria não pode responder a nenhuma dessas perguntas. As fontes não dão mais que isso. Quem lhe vender certezas sobre o que os Templários encontraram sob o Templo está lhe vendendo um romance, não história.
Mas repare no que se pode dizer: esse silêncio de nove anos é o combustível que mantém viva a lenda templária nove séculos depois. Cada romance de mistério, cada filme de tesouros ocultos, cada teoria sobre sociedades secretas que você leu ou viu —de Indiana Jones a Dan Brown— bebe desse buraco negro documental. Os Templários são imortais precisamente pelo que não sabemos deles. Há poucas ironias mais belas em toda a Idade Média.
O tio Bernardo, ou como se fabrica uma legitimidade
O golpe de mestre de Hugues não foi dado na Terra Santa, mas na Europa. E foi político, espiritual e —segundo uma tradição muito persistente— um assunto de família.
Bernardo de Claraval, o futuro São Bernardo, teria sido tio de Hugues por parte de mãe. Se essa tradição for verdadeira, o homem que convenceu a Europa inteira a apoiar o Templo não era um aliado externo: era sangue do seu sangue.
E aqui cabe outra pausa de perspectiva, porque o nome de Bernardo de Claraval hoje não diz nada a quase ninguém e na época dele era tudo. Falamos do monge mais influente do continente. Um homem que repreendia papas por carta e os papas lhe pediam desculpas. Um pregador capaz de esvaziar cidades inteiras de jovens, porque todos partiam atrás dele para o mosteiro. Se Bernardo abençoava algo, esse algo existia. Se o condenava, estava morto.
Bernardo não se limitou a respaldar os Templários. Escreveu-lhes um tratado, De laude novae militiae —«Em louvor da nova cavalaria»—, no qual resolvia teologicamente o paradoxo impossível do monge-soldado. Como pode um homem de Deus matar? Resposta de Bernardo: quem morre nesta luta morre mártir; e quem mata o inimigo da fé não comete homicídio, mas malicídio — não mata um homem, destrói o mal.
Detenha-se um segundo nessa palavra, porque é uma obra de engenharia. Com um jogo de conceitos, Bernardo desmontou o maior obstáculo que a nova ordem tinha pela frente e transformou uma contradição escandalosa num ideal admirável. Chame de teologia ou chame de gênio do marketing: no século XII eram frequentemente a mesma coisa.
Troyes, 1129: o selo
Com o respaldo de Bernardo na mão, Hugues cruzou o mar e se apresentou no Concílio de Troyes, em janeiro de 1129. De lá saiu tudo o que faltava: a regra oficial da ordem, inspirada na de Cister, e a designação formal de Hugues de Payens como primeiro Grão-Mestre do Templo.
Tinha cerca de sessenta anos. No século XII, sessenta anos não era uma idade: era uma façanha. A maioria de seus contemporâneos estava debaixo da terra havia décadas. Hugues começou a obra da sua vida numa idade em que quase todos os homens do seu tempo já tinham terminado a deles. Que ninguém lhe diga jamais que é tarde.
E não ficou parado. Os anos seguintes passou percorrendo França, Inglaterra, Escócia e Flandres numa turnê de recrutamento e arrecadação que hoje chamaríamos, sem exagero, de campanha internacional de lançamento. Doações de terras, castelos, rendas e cavalos começaram a chover de toda a cristandade. Nobres de primeira linha pediam para vestir o hábito. Em poucos anos, aqueles nove pobres que dividiam um cavalo tinham virado a instituição da moda na Europa.
O homem por trás da lenda
Em O Amanhecer dos Templários, o quarto livro da minha saga sobre as Cruzadas, tentei devolver a vida a esse homem esquivo. Não ao mito das mil teorias: ao homem. Um cavaleiro que envelhecia, que tinha visto a violência da Terra Santa por dentro durante décadas, e que concebeu algo absolutamente novo: uma instituição capaz de sustentar a presença cristã no Oriente não a golpes de heroísmos soltos, mas mediante disciplina, organização e solidariedade fraterna. O que Hugues inventou não foi um corpo de elite. Foi uma ideia de permanência.
Porque o Templo de Hugues ainda não era a potência financeira e política em que se transformaria um século depois. Era algo mais austero e mais íntimo: um punhado de homens que tinham escolhido viver no fio de uma contradição, entre a espada e a cruz, entre o mundo e o claustro. A contradição não os destruiu. Definiu-os.
Hugues de Payens morreu em 1136, provavelmente na Terra Santa, na cama e de botas calçadas, que era a melhor morte a que um templário podia aspirar sem martírio de permeio. Não viveu para ver o esplendor do que havia fundado. Tampouco —e isso foi uma misericórdia— viveu para ver a fogueira em que tudo terminaria em 1314, uma história que conto em outro artigo deste blog e que ainda hoje revira o estômago.
Deixou algo que nenhum rei e nenhum papa puderam confiscar jamais: uma ideia. A ideia de que a fé e a espada não são incompatíveis. A ideia de que a pobreza e o poder podem conviver sob o mesmo teto. E a ideia, sobretudo, de que nove homens com determinação suficiente podem mudar o curso da história.
Conseguiram. Para o bem, para o mal e para a lenda.
Fontes e referências
- Concílio de Troyes (1129) — aprovação da Ordem do Templo.
- Regra do Templo — redigida com a participação de Bernardo de Claraval.
- Bernardo de Claraval, De laude novae militiae (c. 1130).
- Guilherme de Tiro, Historia rerum in partibus transmarinis gestarum.
Neste artigo NÃO há ficção
Está tudo documentado: a fundação da Ordem por volta de 1119 por Hugues de Payens, Godofredo de Saint-Omer e um punhado de cavaleiros, a cessão por Balduíno II da ala do palácio erguida sobre a esplanada do Templo —de onde lhes veio o nome, pauperes commilitones Christi Templique Salomonici—, a aprovação oficial no Concílio de Troyes de 1129 e a Regra redigida com a mão de Bernardo de Claraval por trás. Registram-no Guilherme de Tiro, as atas conciliares e a própria Regra latina. Que nove homens se propusessem a proteger os caminhos da Terra Santa soa a lenda piedosa e, no entanto, foi assim que começou o primeiro banco internacional da Europa: os documentos estão aí, e são entediantemente concretos. Os comentários do narrador pertencem à voz literária pessoal do autor, David S. Matrecano.

