Por volta do ano 1119, em Jerusalém recém-conquistada, nove cavaleiros apresentaram-se diante do rei Balduíno II com uma proposta insólita: queriam viver como monges, fazer votos de pobreza, castidade e obediência… e ao mesmo tempo continuar a usar a espada. O que nasceu dessa audiência foi a ordem religiosa mais poderosa, misteriosa e duradoura da história ocidental. E o homem que a concebeu chamava-se Hugues de Payens.
Um cavaleiro da Champanha na Terra Santa
Sabemos surpreendentemente pouco sobre os primeiros anos de Hugues de Payens. Nasceu por volta de 1070 na região da Champanha, no nordeste de França, no seio de uma família de pequena nobreza. Era primo do Conde da Champanha — que também se chamava Hugues, Hugues I da Champanha —, um dos senhores feudais mais poderosos da época. Em 1104, primos e amigos, empreenderam juntos a viagem a Jerusalém pela primeira vez.
Os nove cavaleiros e o rei
A fundação do Templo é uma história de ousadia calculada. Hugues convocou oito companheiros de confiança — entre os quais o seu cunhado Godofredo de Saint-Omer — e apresentaram-se diante de Balduíno II com uma missão oficial: proteger as rotas de peregrinação entre o porto de Jafa e a Cidade Santa. Balduíno II cedeu-lhes uma ala do palácio real situado sobre a Esplanada do Templo, onde se acreditava que estivera o estábulo do rei Salomão. Daí o nome que adotaram: os Pobres Companheiros de Cristo e do Templo de Salomão. Os Templários.
Bernardo de Claraval e a legitimidade
O golpe de mestre de Hugues foi político e espiritual ao mesmo tempo. Bernardo de Claraval, o futuro São Bernardo, teria sido tio de Hugues pelo lado materno. Convencer Bernardo de Claraval, o monge mais influente da Europa, a colocar a sua autoridade intelectual ao serviço da nova ordem foi, em todo o caso, o movimento decisivo. Bernardo não apenas apoiou os Templários — escreveu-lhes o tratado De laude novae militiae, «Em louvor da nova cavalaria».
O homem por trás da lenda
Em O Despertar dos Cavaleiros Templários, o quarto livro da minha saga sobre as Cruzadas, tentei dar vida a este homem esquivo. Não ao mito — ao homem. Um cavaleiro que envelhecía, que havia visto a violência da Terra Santa por dentro durante décadas, e que havia concebido algo absolutamente novo: uma instituição capaz de sustentar a presença cristã no Oriente não apenas pela força bruta, mas pela disciplina, a organização e a solidariedade fraterna. Hugues de Payens morreu em 1136, provavelmente na Terra Santa. Não viveu para ver o esplendor, nem a queda, daquilo que havia fundado.
Fontes e referências
- Concílio de Troyes (1129) — aprovação da Ordem do Templo.
- Regra do Templo — redigida com a participação de Bernardo de Claraval.
- Guilherme de Tiro, Historia rerum in partibus transmarinis gestarum.
Neste artigo NÃO há ficção
Está tudo documentado: a fundação da Ordem por volta de 1119 por Hugo de Payns, Godofredo de Saint-Omer e um punhado de cavaleiros, a cessão por Balduíno II da ala do palácio erguida sobre a esplanada do Templo —de onde lhes veio o nome, pauperes commilitones Christi Templique Salomonici—, a aprovação oficial no Concílio de Troyes de 1129 e a Regra redigida com a mão de Bernardo de Claraval por trás. Registram isso Guilherme de Tiro, as atas conciliares e a própria Regra latina. Que nove homens se propusessem a proteger os caminhos da Terra Santa soa a lenda piedosa, e no entanto foi assim que começou o primeiro banco internacional da Europa: os documentos estão aí, e são entediantemente concretos. Os comentários do narrador pertencem à voz literária pessoal do autor, David S. Matrecano.

