Seis anos antes, uma ilha árida de 316 quilômetros quadrados havia dito não ao império mais poderoso do mundo. Em 7 de outubro de 1571, num golfo grego que cheirava a sal e a piche, quatrocentos navios se lançaram uns contra os outros para resolver de uma vez quem mandava no Mediterrâneo. Em cinco horas morreram trinta mil homens, quinze mil escravos voltaram a ver o sol, e um soldado ardendo em febre perdeu uma mão e ganhou a imortalidade. Esta é a história do que aconteceu depois de Malta.
Malta 1565: a faísca que incendiou a Europa
Vamos começar por onde termina a outra história.
Em setembro de 1565, quando os últimos navios turcos deixaram Malta vencidos e humilhados, a mensagem que percorreu a Europa foi inequívoca: o avanço otomano tinha um limite. Pela primeira vez em décadas, a Cristandade havia resistido ao maior esforço militar do Império Otomano. E não numa grande capital amuralhada com cem mil habitantes atrás, mas numa ilha seca de 316 quilômetros quadrados, defendida por um punhado de cavaleiros velhos, alguns milhares de soldados e uma população civil que se recusou a se render.
Como conto em Malta 1565: O Grande Cerco de Malta, aquela vitória não foi apenas militar. Foi o detonador psicológico que tornou possível tudo o que veio depois. A partir de Malta, os reinos cristãos começaram a pensar —pela primeira vez desde a queda de Constantinopla, cento e doze anos antes— que uma aliança ofensiva contra o poder naval otomano não era só desejável: era possível.
Pensar não é fazer. Entre o pensamento e a frota passaram-se seis anos. E para entender por que demoraram tanto, é preciso entender o que eram os príncipes cristãos daquele século: um pátio de escola de coroa na cabeça.
Seis anos de portas na cara
O homem que transformou aquela possibilidade em realidade foi o papa Pio V, um dominicano magro, austero e de um temperamento que hoje chamaríamos de insuportável e que na época se chamava santidade. Havia anos tentava a mesma coisa: convencer os reis cristãos a parar de se estapear entre si e olhar para o oriente.
Custou-lhe um esforço enorme. Veneza não confiava na Espanha. A Espanha não confiava em Veneza. Gênova não confiava em ninguém. E a França —segure-se— brilhava pela ausência, por um motivo de que os franceses não gostam que os lembrem: havia décadas mantinha uma aliança estratégica com o sultão otomano. Sim, você leu certo. O rei Cristianíssimo aliado ao Grão-Turco, porque ambos tinham um inimigo comum mais urgente do que a fé: a Casa de Habsburgo. Em Paris chamavam isso de realismo político. Em Roma chamavam de outra coisa.
Em maio de 1571, depois de meses de negociações extenuantes, assinou-se enfim a Liga Santa: o papado, a República de Veneza e a coroa espanhola de Filipe II. No papel, a maior coalizão militar que a Europa já havia reunido. No terreno, três sócios que se vigiavam entre si quase tanto quanto vigiavam o inimigo.
Faltava algo mais para que aquilo deixasse de ser um contrato e virasse uma guerra. E esse algo chegou em agosto, de Chipre, na forma da notícia mais medonha do século.
A pele de Bragadin
Famagusta era a última praça veneziana em Chipre. Marcantonio Bragadin a defendia com menos de nove mil homens contra um exército otomano de oitenta mil. Aguentou onze meses. Onze. Quando já não restava pólvora nem pão nem esperança, negociou uma rendição honrosa: seus homens sairiam com vida, as mulheres seriam respeitadas, ele se entregaria pessoalmente. O comandante turco Lala Mustafá assinou todas as condições.
E não cumpriu nenhuma.
Bragadin foi preso. Cortaram-lhe as orelhas e o nariz e o deixaram apodrecer doze dias sem atendimento. Depois o desfilaram pelas ruas carregado de correntes e de cestos de terra, obrigando-o a beijar o chão cada vez que passava diante do pavilhão do comandante. Içaram-no numa verga e o baixaram de novo. E por fim, amarrado a uma coluna na praça de Famagusta, esfolaram-no vivo. Começaram pela cabeça. Dizem as crônicas que ele permaneceu consciente até a cintura.
Encheram a pele de palha, vestiram-na com suas roupas de governador, sentaram-na sobre uma vaca e a passearam pela cidade. Depois a penduraram no mastro grande da galé de Lala Mustafá como troféu e a levaram para Constantinopla.
Essa história chegou a todas as cortes da Europa em questão de semanas. E de repente, milagrosamente, sumiram as reticências, as brigas pela divisão do comando e as discussões sobre quem pagava o quê. Nada une tanto quanto o horror.
A frota da Liga Santa reuniu-se em Messina naquele verão: mais de duzentas galés, seis galeaças venezianas, cerca de mil e oitocentos canhões e mais de oitenta mil homens entre marinheiros, remadores e soldados. A maior concentração de poder naval que o Mediterrâneo havia visto desde a Antiguidade. E todos sabiam, olhando do cais, que aquilo não se repetiria duas vezes. Ou funcionava agora, ou não funcionaria nunca.
Vinte e quatro anos e toda a Europa atrás
No comando daquela armada puseram um rapaz de vinte e quatro anos.
Dom João de Áustria era filho do imperador Carlos V e de Bárbara Blomberg, uma jovem de Ratisbona com quem o imperador, já viúvo, teve uma relação fora do casamento. Nasceu na Alemanha, cresceu em Castela com outro nome —Jeromín—, aos cuidados de um homem de confiança do imperador, e demorou anos para saber de quem era filho. Carlos V reconheceu-o num codicilo assinado pouco antes de morrer; e foi Filipe II quem, cumprindo a vontade do pai, o abraçou diante de toda a corte, cingiu-lhe a espada, pôs-lhe ao pescoço o Tosão de Ouro e deu-lhe casa própria. Nas cerimônias públicas caminhava atrás da família real e à frente de todos os Grandes de Espanha. Em particular, onde não há protocolos, era simplesmente um da casa.
Tinha vinte e quatro anos. Era bonito, magnético, corajoso até a temeridade e perfeitamente consciente do peso histórico do que lhe pediam. Não era um almirante veterano curtido em grandes batalhas navais. Era outra coisa, talvez mais útil: um homem capaz de fazer com que oitenta mil desconhecidos se deixassem matar por ele.
Há um detalhe que eu adoro e que quase ninguém conta. Francesco Balbi da Correggio, o soldado italiano que viveu o Grande Cerco de Malta por dentro e escreveu o primeiro relato direto daqueles meses —o mesmo Balbi que narra o meu livro—, dedicou sua crônica justamente a dom João de Áustria. O vínculo entre Malta e Lepanto não era só estratégico: era pessoal, quase de família. A mesma geração que havia defendido a ilha foi a que embarcou para fechar a conta.
Dom João percorreu a frota antes da batalha, galé por galé, de pé num bergantim leve, arengando a tropa sob o sol de outubro. Disse-lhes que vinham combater pela Cruz e pela liberdade da Europa. Quando alguns almirantes mais prudentes —e mais velhos— sugeriram esperar, manobrar, talvez negociar, ele respondeu que tinha vindo para lutar e não para parlamentar.
Aos vinte e quatro anos, isso pode ser insensatez. Naquele dia acabou sendo estratégia.
Os monstros que ninguém tinha visto
Agora vem a parte que os documentários costumam despachar em dez segundos e que decidiu a batalha.
Veneza vinha trabalhando havia anos num aparato esquisito: pegar um enorme navio mercante de casco largo, cortar-lhe os mastros, blindá-lo, carregá-lo de artilharia pesada em todos os lados e rebocá-lo até a linha de combate. Não era rápido. Não era manobrável. Não era, francamente, nem bonito. Chamavam-se galeaças e eram, na prática, fortalezas flutuantes.
A galé de guerra do século XVI era um animal de esgrima: aproximava-se de frente, disparava o canhão de proa uma única vez e depois abordava para resolver o assunto na espada. Toda a tática naval do Mediterrâneo girava em torno disso havia dois séculos. As galeaças quebravam o jogo: podiam disparar em todas as direções, uma vez após a outra, sem precisar se aproximar de ninguém.
Dom João mandou rebocar as seis à frente da própria linha. Os turcos, ao vê-las, não souberam o que eram. Alguns acharam que fossem navios de carga atrasados. Meteram-se entre elas.
Foi como mandar a cavalaria por um corredor de metralhadoras.
Cinco horas no golfo de Patras
A frota otomana, sob o comando de Ali Paxá, havia saído de Lepanto —a antiga Náupacto grega— com uns duzentos e oitenta navios e mais de setenta e cinco mil homens. As duas armadas se avistaram na manhã de 7 de outubro de 1571 no golfo de Patras, na entrada do de Corinto, diante da costa ocidental da Grécia. Não havia vento. Não havia saída. Não havia segunda chance para ninguém.
Contam que houve um silêncio longo enquanto as linhas se ordenavam, e que a única coisa que se ouvia era o rufar dos tambores marcando o ritmo dos remos em quatrocentos navios ao mesmo tempo.

O combate começou ao meio-dia. As galeaças romperam a formação otomana antes mesmo de ela se completar; depois, a batalha virou o que sempre eram as batalhas navais daquele século: milhares de homens pulando de um convés para outro com espadas, machados e piques, sobre um chão de madeira escorregadia. Não afundavam muitos navios. Esvaziavam-se de gente.
No centro, a capitânia de dom João, a Real, engatou-se diretamente com a Sultana de Ali Paxá. Abordaram-se três vezes. Os turcos entraram na Real duas vezes e foram repelidos duas vezes. Na terceira foram os espanhóis que passaram, e não voltaram mais. Ali Paxá morreu no próprio convés. Alguém lhe cortou a cabeça, espetou-a numa pique e a içou no mastro grande.
E aí acabou tudo. Porque uma frota é uma máquina que funciona a moral, e quando os turcos viram aquela cabeça no alto da sua capitânia, a máquina parou.
Ao cair da tarde, o balanço era o pior desastre naval da história otomana: mais de duzentos navios afundados ou capturados, entre vinte e cinco e trinta mil mortos, e o mito da invencibilidade turca no Mediterrâneo feito lascas boiando na água. Os cronistas escreveram que o mar estava vermelho, e por uma vez não era literatura.
Os quinze mil que voltaram a ver o sol
E agora o que quase nunca se conta, e que para mim é o melhor daquele dia.

As galés turcas se moviam graças a remadores acorrentados. E uma parte enorme daqueles remadores eram cristãos capturados nas costas da Itália, da Espanha, da Grécia e da Dalmácia: pescadores, camponeses, marinheiros, homens que um dia saíram de casa e não voltaram. Estavam ali havia anos. Muitos, décadas. Acorrentados a um banco, remando doze horas, sem ver outra coisa além das costas do da frente.
Quando a frota da Liga Santa capturou aqueles navios, soltou-os.
Mais de quinze mil pessoas. Quinze mil homens que se levantaram de um banco ao qual estavam presos havia meia vida, subiram ao convés e viram o sol e a costa e outros homens falando a sua língua. Não há número em toda esta história que me impressione mais. As batalhas são lembradas pelos mortos; esta eu gosto de lembrar pelos quinze mil que voltaram para casa.
Muitos não tinham casa para onde voltar. Muitos não encontraram ninguém. Mas saíram.
O maneta que não era maneta
Entre os oitenta mil homens que combateram naquele dia havia um soldado espanhol de vinte e quatro anos embarcado na galé Marquesa. Chamava-se Miguel de Cervantes Saavedra e estava doente de malária, com febre alta, deitado sob o convés no entreconvés que servia de enfermaria.
Quando começou o combate, os companheiros lhe disseram que ficasse onde estava. Ninguém ia recriminá-lo.

Ele se recusou. Pediu que o levassem para cima, e não só isso: pediu que o colocassem no esquife, o barquinho amarrado ao costado, que era o posto mais exposto de todo o navio. Combateu ali as cinco horas.
Recebeu três tiros de arcabuz: dois no peito e um na mão esquerda. Os do peito cicatrizaram. O da mão destruiu-lhe os nervos e a deixou inútil pelo resto da vida. Atenção a isto, porque é um mal-entendido de quatro séculos: Cervantes não perdeu a mão. Conservou-a inteira até o dia de sua morte. Simplesmente ela já não lhe respondia. O apelido de «o maneta de Lepanto» é, tecnicamente, um exagero popular que ele nunca se deu ao trabalho de corrigir.
E não corrigiu porque tinha muito orgulho. Quando anos depois algum crítico literário quis feri-lo com o assunto, respondeu com uma das frases mais elegantes já escritas sobre uma cicatriz: que aquela ferida, «ainda que pareça feia, ele a tem por formosa, por havê-la recebido na mais memorável e alta ocasião que viram os séculos passados, nem esperam ver os vindouros».
Traduzindo: sim, minha mão ficou feia. Eu estive em Lepanto. E você?
Aquele soldado com febre que se recusou a ficar sob o convés escreveria, trinta e quatro anos depois, Dom Quixote de la Mancha.
O dia em que o Ocidente retomou o seu mar
Quando a notícia chegou à Europa, o continente enlouqueceu.
Em Roma, Pio V —que havia seis anos brigava com meia Cristandade para que aquela frota chegasse a existir— interrompeu o que estava fazendo e pronunciou a frase que esperava havia meia vida para poder dizer: houve um homem enviado por Deus, e o seu nome era João. Instituiu para 7 de outubro uma festa que ainda hoje se celebra. Em Veneza fecharam as lojas e abriram as igrejas, e os sinos não pararam por três dias. Em Gênova, em Nápoles, em Messina, em Sevilha, em Viena: fogueiras, procissões, tedéuns, gente na rua se abraçando sem se conhecer.
Ticiano pintou. Veronese pintou. Vasari encheu com isso uma sala inteira do Vaticano. Durante gerações, todo capitão do Mediterrâneo que quisesse se gabar de alguma coisa dizia que o pai ou o avô tinha estado em Lepanto.
E tinham razão. Porque o que se ganhou naquele dia não foi uma praça, nem um porto, nem um tratado: foi o mar.
Durante cento e dezoito anos, desde a queda de Constantinopla, a Europa vivera com a certeza de que o poder otomano era uma força da natureza —algo que se podia padecer, negociar ou subornar, mas não deter. Malta, em 1565, provou que se podia resistir. Lepanto, em 1571, provou que se podia destroçar. A frota mais temida do mundo entrou no golfo de Patras pela manhã e ao anoitecer já não existia.
Os cronistas escreveram que o mar estava vermelho. Os que voltaram disseram que nunca tinham visto nada igual e que não voltariam a ver. Cervantes, com a mão destruída e uma vida inteira pela frente para escrever o melhor romance da história, jamais duvidou sobre qual havia sido o maior dia da sua vida: a mais alta ocasião que viram os séculos.
Nove séculos de guerra por este mar, e tudo se decidiu em cinco horas de uma tarde de outubro.
Nada mal para seis anos de trabalho, um papa teimoso, um rapaz de vinte e quatro anos criado longe do pai, seis navios feíssimos e um soldado com febre que não quis ficar sob o convés.
Fontes e referências
- Crônicas espanholas, venezianas e pontifícias do século XVI sobre a formação da Liga Santa e sobre a jornada de 7 de outubro de 1571.
- Despachos de dom João de Áustria ao rei Filipe II depois da batalha.
- Miguel de Cervantes, prólogo às Novelas exemplares e outras dedicatórias: testemunho direto de um combatente.
- Relações venezianas sobre o cerco e a queda de Famagusta e sobre o suplício de Marcantonio Bragadin.
- Francesco Balbi da Correggio, Diário do Grande Cerco de Malta (1568), dedicado a dom João de Áustria.
Neste artigo NÃO há ficção
Os fatos são os documentados. A Liga Santa foi assinada em maio de 1571 entre o papado, Veneza e a Espanha de Filipe II; a França não participou e mantinha uma aliança com o sultão. Famagusta caiu em agosto de 1571 e Marcantonio Bragadin foi mutilado e esfolado vivo após uma capitulação que não foi respeitada: contam-no as relações venezianas. A batalha foi travada em 7 de outubro de 1571 no golfo de Patras, na entrada do de Corinto, sob o comando de dom João de Áustria, que tinha vinte e quatro anos. As seis galeaças venezianas abriram o combate a partir da vanguarda. Ali Paxá morreu a bordo da sua capitânia e sua cabeça foi exibida. Os libertados dos bancos das galés otomanas contam-se aos milhares: as fontes dão números em torno de quinze mil. Miguel de Cervantes combateu doente do esquife da galé Marquesa e recebeu três tiros de arcabuz, dois no peito e um na mão esquerda, que ficou inútil embora nunca tenha sido amputada. Os números de navios e de baixas variam conforme a fonte e aqui se usam os mais bem documentados. Os comentários e apreciações do narrador fazem parte da voz artística e literária pessoal do autor David S. Matrecano.

