Sexta-feira, 13 de outubro de 1307, seis da manhã. O rei da França Filipe IV ordena a seus gendarmes uma espécie de «blitz antiterrorismo»: a prisão imediata e simultânea de todos os cavaleiros templários do reino. Grão-Mestre incluído. Sem nenhuma exceção por doença, posto, idade avançada ou méritos militares. A destruição da Ordem do Templo na Europa acabava de começar e, nos sete anos seguintes, se tornaria irreversível. Acompanhem-me a explorar as profundezas deste artigo e eu conto tudo a vocês.
Ao amanhecer daquela sexta-feira 13, os agentes do rei invadiram simultaneamente todas as comendas, palácios, casas particulares, fazendas e propriedades dos templários do reino. A operação tinha sido preparada no maior segredo durante semanas, talvez meses, com milhares de ordens lacradas com cera e o anel do rei, destinadas aos comandantes de todos os quartéis militares e de polícia, e que não podiam ser abertas antes da véspera do dia 13. Quando aqueles lacres de cera vermelha se romperam em uníssono às seis da manhã, em pouquíssimas horas centenas — para não dizer milhares — de Cavaleiros Templários foram tirados de suas camas e presos sob acusações gravíssimas e totalmente falsas. Algumas tão absurdas que beiravam o ridículo, todas fabricadas pelo secretário pessoal do rei expressamente para destruí-los. A ordem mais poderosa da Cristandade, que havia sobrevivido a dois séculos de guerra na Terra Santa, foi aniquilada num único dia. E não pela espada sarracena, mas pelo papel e pela pena. Pela conspiração de dois homens — bem, três, mas do terceiro falaremos mais adiante —: Filipe IV o Belo, rei da França, e Clemente V, o número 195 na lista oficial dos papas da Igreja católica, e francês também ele. Já adianto o veredito, que faz anos que convivo com esses personagens: não foi um processo. Foi um assalto à mão armada, um vulgar roubo.
Filipe o Belo: o rei que devia demais
Para entender a destruição do Templo é preciso primeiro entender seu carrasco, e já aviso que o personagem arrepia.
Filipe IV da França, chamado o Belo, era de fato um homem alto e de grande beleza física, mas de olhar tão frio e inquietante que o haviam apelidado de «bela estátua com olhos de peixe». Sim, de peixe morto. Aí terminavam suas virtudes amáveis. Frio até o desumano, calculista, de uma ambição sem fundo, Filipe foi um rei absolutista dois séculos antes de a palavra ser cunhada para Luís XIV, aquele a quem a tradição atribui o L'État c'est moi, o Estado sou eu. Filipe também queria um Estado totalmente centralizado, obediente e rico, e considerava obstáculo tudo o que se interpusesse: fosse um papa, um banqueiro, um militar ambicioso ou uma ordem religiosa com dois séculos de história gloriosa nas costas.
E Filipe tinha um problema muito concreto: estava endividado até o pescoço. Com quem? Pois justamente com os Templários.
Porque o Templo, lá por 1307, já não era aquela irmandade de nove pobres cavaleiros que iam dois num só cavalo, fundada por Hugues de Payens duzentos anos antes. Tinha evoluído até se tornar o primeiro e mais sofisticado banco da Europa. Guardava fortunas, emitia o que hoje chamaríamos de cartas ou letras de crédito — você depositava seu dinheiro em Paris, recebia uma dessas cartas cheia de cera e selos oficiais que o atestava, e o retirava, descontada a comissão dos templários pelo grande favor que lhe faziam, em São João de Acre, sem carregar uma única moeda por estradas infestadas de bandidos e assassinos —, emprestava a príncipes e reis, a mercadores, bispos e papas, e administrava uma rede financeira capilar que ia de Lisboa a Jerusalém. Seria mais ou menos o Goldman Sachs ou o JP Morgan da época medieval, com sua própria rede de caixas eletrônicos, por assim dizer. O próprio tesouro real da França — bem, o pouco que restava, já que o rei havia torrado quase tudo — ficava guardado na torre do Templo de Paris. Leiam de novo: o próprio rei da França guardava seu dinheiro no cofre do banco dos Templários.

E lhes devia somas astronômicas por suas guerras contra a Inglaterra e Flandres.
É aqui que a coisa fica transparente. Filipe não queria roubar o banco: queria queimá-lo com os banqueiros dentro e ficar com o edifício e o cofre. Eliminando fisicamente o Templo, cancelava sua dívida de uma penada, confiscava um patrimônio imenso de castelos, terras e comendas fáceis de vender a peso de ouro e, de quebra, apagava do mapa um poder autônomo que não respondia a ele, mas ao papa. Um Estado dentro do seu Estado. Para um homem como Filipe, isso era simplesmente intolerável.
E não era a primeira vez, atenção. Em 1306 — um ano antes; reparem no ensaio geral — tinha prendido todos os judeus da França num único dia, expulsando-os e confiscando seus bens. Havia desvalorizado a moeda tantas vezes que o povo de Paris se amotinou contra ele. E em 1303 seus homens chegaram a assaltar o próprio papa Bonifácio VIII em sua residência de Anagni, no Lácio, um ultraje do qual o ancião pontífice morreu em um mês. O homem que dirigiu aquela operação foi seu ministro mais astuto, turvo e sinistro, um demônio vindo fazer o mal diretamente do inferno e que aqui na terra, já em forma humana, se fazia chamar Guillaume de Nogaret. Guardem o nome, porque esse grandíssimo filho de má mãe — a quem eu, se me permitem, preferiria chamar diretamente de HDLGP · FdP · SoB · Huso —, primo-irmão do próprio Satanás, vai voltar. Ah, sim, pode apostar que vai voltar, meus amigos…
Clemente V: o papa de bolso
Para executar um plano dessa magnitude, Filipe precisava do papa. O Templo dependia diretamente de Roma: nenhum rei tinha jurisdição sobre a ordem. Sem o papa, não havia operação legal possível.
E Filipe teve a sorte — ou a habilidade, que com ele nunca se sabe — de contar com o papa perfeito. Clemente V, nascido na Gasconha, no sul da França, era um homem de saúde frágil e de vontade ainda mais frágil. Eleito com o apoio decisivo da coroa francesa, jamais pisou em Roma: instalou a corte pontifícia em Avignon, às portas do reino da França, cercado por todos os lados de influência gaulesa. A história o lembra como o primeiro papa do «cativeiro de Avignon». E é preciso admitir que «pobre papa cativo de Avignon» é uma frase muito evocativa, mas a mais exata seria «fantoche, marionete sem alma e papa de bolso».
Clemente não apenas consentiu na perseguição aos Templários sem protegê-los. Avalizou-a, legitimou-a e a estendeu com uma bula a toda a Cristandade. Foi ele quem convocou o Concílio de Vienne, onde em 22 de março de 1312 a ordem foi oficialmente suprimida mediante a bula Vox in excelso. E atenção ao detalhe jurídico, porque é de uma desfaçatez requintada: a bula não condena os Templários. Reconhece que as acusações não tinham sido provadas, e suprime a ordem do mesmo jeito «pelo bem da paz da Igreja». Traduzido do latim curial para o português claro: porque o rei da França exigia.
As acusações: um terno sufocante feito sob medida
Vamos falar das acusações, porque são uma obra-prima do cinismo.
Os Templários foram acusados de renegar Cristo em seus rituais secretos de ingresso, de cuspir e urinar sobre a cruz, de adorar um ídolo demoníaco chamado Bafomé, de beijos obscenos em partes proibidas e de praticar a sodomia institucionalizada como ato de iniciação na ordem. Reparem no desenho: não foram acusados de roubo nem de corrupção financeira, o que teria exigido livros de contas e provas. Foram acusados exatamente do tipo de crime que na Idade Média não precisava de provas: o crime secreto, noturno, ritual, impossível de presenciar — ainda mais quando não havia câmeras nem telefones celulares — e portanto impossível de refutar. Se você negava, era o demônio que o ajudava a mentir de forma convincente para se salvar. Se confessava, sob torturas indizíveis, era culpado e devia morrer. A armadilha não tinha saída, e não tinha de propósito.
As confissões foram arrancadas com tortura, aplicada com um zelo que tornava a resistência fisicamente impossível. E o aparato que a aplicou na França não respondia ao papa, mas ao rei: à frente de tudo estava o secretário Guillaume de Nogaret — eu disse que o nome voltaria —, o mesmo homem que tinha ido a Anagni ameaçar e esbofetear Bonifácio VIII em seu próprio palácio, o famoso ultraje de Anagni. O guarda-selos de Filipe, seu homem para os trabalhos sujos, agora no comando do maior processo inquisitorial da história da França. E podia fazê-lo, pois Nogaret, no seu tempo, tinha sido professor de jurisprudência na Universidade de Montpellier.
Quase todos confessaram. Quase todos se retrataram depois, assim que os soltaram das cordas do potro e dos demais instrumentos de tortura. E aqui o sistema mostrou sua presa mais afiada: retratar-se de uma confissão fazia de você um «relapso», reincidente na heresia. E o relapso ia para a fogueira sem mais trâmites e ainda mais rápido. Em maio de 1310, cinquenta e quatro templários que tiveram a coragem de se retratar em bloco foram queimados vivos nos arredores de Paris num único dia. Seu crime real: ter dito a verdade duas vezes.
O pergaminho de Chinon: a prova que dormiu sete séculos
E agora deixem que eu conte a virada final e inesperada desta história, porque é daquelas que me reconciliam com o ofício de historiador.
Em 2001, a paleógrafa italiana Barbara Frale encontrou no Arquivo Secreto do Vaticano — hoje Arquivo Apostólico do Vaticano — um documento extraviado e perdido durante séculos: o chamado pergaminho de Chinon, datado de agosto de 1308. Nele consta que os enviados pessoais de Clemente V interrogaram na fortaleza de Chinon o último Grão-Mestre templário, Jacques de Molay, e a cúpula do Templo ali detida… e os absolveram da acusação de heresia, readmitindo-os aos sacramentos.
Leiam devagar, porque não tem desperdício: o papa sabia que eles não eram hereges. Colocou por escrito. E quatro anos depois suprimiu a ordem assim mesmo, e dois anos mais tarde deixou que queimassem os mesmos homens que seus enviados haviam absolvido. Há traições que não precisam de adjetivos.

A fogueira e a maldição
O fim chegou em 18 de março de 1314, na Île de la Cité, em pleno coração de Paris, bem em frente à catedral de Notre-Dame.
Jacques de Molay, último Grão-Mestre do Templo, e Geoffroy de Charney, preceptor da Normandia, foram levados diante do povo para ratificar publicamente suas confissões em troca de prisão perpétua. Molay tinha mais de setenta anos e passara sete apodrecendo nos cárceres do rei. E nesse momento, com a liberdade ao alcance de uma frase, o ancião fez a última coisa que ninguém esperava: ergueu a voz e proclamou diante da multidão que a ordem era inocente, que as confissões tinham sido arrancadas com tormento e que seu único crime fora mentir sob tortura. Charney o secundou.
Relapsos os dois, naquela mesma tarde arderam na fogueira. Conta-se que Molay pediu para morrer de frente para Notre-Dame, com as mãos livres para rezar.

E aqui nasce a lenda que todos conhecem: das chamas, Molay teria intimado o rei e o papa a comparecer diante do tribunal de Deus antes de um ano. Clemente V morreu em abril de 1314, um mês depois. Filipe IV morreu em novembro, aos quarenta e seis anos, após um acidente de caça. E nos catorze anos seguintes morreram um após o outro os três filhos de Filipe sem deixar herdeiro varão, extinguindo a dinastia dos Capetos diretos que reinava na França havia mais de três séculos. Os franceses os chamam de les rois maudits, os reis malditos, e com esse título Maurice Druon escreveu a saga que inspirou, entre outras coisas, Game of Thrones.
Eu acredito na maldição dos Templários e na sexta-feira 13? Sim? Não? Talvez… Acredito em coincidências que escrevem melhor que os romancistas. Mas entendam que, com esse material, a superstição da sexta-feira 13 como dia aziago tenha aqui sua origem mais citada. Há datas que ganham a má fama no braço.
Traição ou conspiração de Estado?
A resposta que a história oferece, sete séculos depois, é de uma clareza incômoda: foi uma conspiração de Estado. Não existe evidência séria de heresia nem de crimes templários e, desde 2001, sabemos com o pergaminho de Chinon da doutora Frale que nem o próprio papa acreditava nela. Houve um rei devorado pelas dívidas e pela ambição, um papa fraco demais para dizer não, e uma maquinaria judicial posta a serviço do poder político com uma eficácia que ainda hoje assusta.
A sexta-feira, 13 de outubro de 1307, não expôs a corrupção de uma ordem. Perpetrou uma das maiores injustiças institucionais da Idade Média e, ainda por cima, saiu de graça: ninguém jamais pagou por ela.
Em O Amanhecer dos Templários, o quarto livro da minha saga sobre as Cruzadas, narro o nascimento luminoso desta ordem: os nove cavaleiros, o idealismo, a Jerusalém recém-conquistada. Mas quem conhece o final não consegue evitar ler aqueles começos com um nó na garganta. Essa sombra que paira no horizonte, a fragilidade do que Hugues de Payens fundou com tanto sacrifício, é parte essencial da atmosfera da saga. Porque as grandes instituições não apenas nascem: também morrem. E às vezes quem as mata, numa sexta-feira qualquer, é a assinatura de um rei.
Fontes e referências
- Processos do Templo (1307–1314) — atas conservadas no Arquivo Apostólico do Vaticano.
- Pergaminho de Chinon (agosto de 1308) — Arquivo Apostólico do Vaticano, publicado por Barbara Frale em 2001.
- Bula Vox in excelso de Clemente V (22 de março de 1312) — supressão da Ordem.
- Crônica de Geoffroi de Paris — relato de 13 de outubro de 1307.
Neste artigo NÃO há ficção
Está tudo nas atas: as detenções simultâneas da sexta-feira, 13 de outubro de 1307, por ordem de Filipe IV, os interrogatórios, a supressão da Ordem no Concílio de Vienne pela bula Vox in excelso de 1312 e a fogueira de Jacques de Molay em 1314. Os originais estão no Arquivo Apostólico do Vaticano e o relato da batida foi deixado por escrito por Geoffroi de Paris. As confissões foram arrancadas com tormento, e não é este artigo que diz isso: disseram os próprios templários assim que os tiraram do potro, quando quase todos se retrataram — e cinquenta e quatro deles arderam por isso em 1310. O pergaminho de Chinon, encontrado no arquivo vaticano e publicado em 2001, documenta que os enviados de Clemente V absolveram de heresia a cúpula do Templo em 1308. O ultraje de Anagni de 1303, bofetada no papa incluída, foi dirigido por Guillaume de Nogaret. Quanto ao motivo, nenhum documento traz escrito «fiz isso por dinheiro»; mas o rei devia ao Templo uma fortuna, ficou com seus bens, e quem dirigiu o processo foi seu guarda-selos, o mesmo que anos antes tinha ido a Anagni buscar o papa. As conclusões e os juízos do narrador pertencem à voz literária pessoal do autor, David S. Matrecano.

