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O forte de Santelmo: 31 dias que salvaram a Europa

Malta, maio–junho de 1565 · A derrota que salvou o Ocidente

19 jun 2026 · 13 min
O forte de Santelmo: 31 dias que salvaram a Europa

Há derrotas que valem mais do que mil vitórias. A mais célebre é a dos trezentos espartanos de Leônidas nas Termópilas, em 480 a.C. Mas há outra, quase vinte séculos depois, num esporão de rocha perdido no coração do Mediterrâneo, que merece ficar ao lado dela: a queda do forte de Santelmo, no verão de 1565. Um desastre militar absoluto —o forte perdido, a sua guarnição morta até o último homem— que, ainda assim, salvou a ilha de Malta e, com ela, provavelmente, meia Europa.

Uma estrela de pedra no pior lugar possível

Para entender a tragédia é preciso entender a geografia, então coloque por um momento o chapéu de Indiana Jones. O porto de Malta é, desde a Antiguidade, um dos melhores refúgios naturais do Mediterrâneo: uma série de penínsulas que avançam para o mar e de enseadas que penetram terra adentro como os dedos de uma mão. Na ponta de uma dessas línguas de rocha, a península de Sciberras, bem na entrada e vigiando o acesso aos dois grandes portos, erguia-se o forte de Santelmo —Sant'Elmo para os malteses—, uma fortaleza de traçado italiano em forma de estrela, levantada às pressas por volta de 1552 sob o magistério do espanhol frei Juan de Homedes e depois reforçada pela Ordem sob o francês frei Claude de la Sengle.

Pela sua posição, Santelmo era a chave do ferrolho que abria e fechava a porta de Malta. Enquanto essa chave estivesse em mãos cristãs, a frota otomana não podia usar com comodidade o ancoradouro abrigado de Marsamxett para se proteger das tempestades. Por isso, quando o imenso exército do sultão Solimão, o Magnífico desembarcou em Malta no dia 18 de maio de 1565 —dezenas de milhares de homens, a maior força militar do seu tempo—, os seus comandantes Mustafá Paxá e o almirante Piyale Paxá (dois homens que se odiavam de morte) decidiram que a primeira coisa era arrancar aquela chave das mãos dos poucos cristãos entrincheirados lá dentro.

Calcularam que aquele fortim, uma vez que começassem a martelá-lo com as centenas de canhões trazidos de Istambul, cairia em quatro ou cinco dias. Spoiler: levaram trinta e um dias e deixaram meio exército morto ou mutilado sob as suas muralhas.

«Resistam. Eu sei que vão morrer.»

À frente da defesa de Malta estava o Grão-Mestre da Ordem de São João, Jean Parisot de La Valette, uma velha raposa francesa de setenta e um anos, dura como granito, que tinha passado meia vida combatendo e conhecera a escravidão turca na própria pele: um ano inteiro acorrentado ao remo de uma galera otomana. La Valette sabia perfeitamente que Santelmo, isolado na sua ponta de terra, não podia resistir à artilharia nem ao número do inimigo. Não criava ilusões. Mas sabia algo mais importante: cada dia que o forte aguentava era um dia que o grosso do exército turco perdia ali, se dessangrando, em vez de se lançar contra o coração da defesa —o Burgo, Senglea, o Castel Sant'Angelo—, cujas obras ainda estavam sendo concluídas.

Assim, o cálculo do Mestre foi tão frio quanto brutal, e absolutamente necessário: Santelmo tinha de aguentar o máximo possível, ainda que isso custasse a vida de toda a sua guarnição. Mandou para lá os seus melhores cavaleiros, soldados profissionais —espanhóis do Tercio Viejo de Sicilia e italianos— e um punhado de milicianos malteses voluntários, levados de noite em barco, sabendo que os enviava a uma morte certa. Quando os defensores, vendo o quanto a situação era desesperada, pediram para ser evacuados ou de fato reforçados (com milhares de homens que não existiam), La Valette respondeu que o dever deles era morrer ali, até o último suspiro. E quando alguns protestaram, o velho Mestre —para mostrar que na hora do sacrifício não havia tratamento de favor para ninguém— ofereceu-se para ir morrer ele mesmo em Santelmo, no lugar deles. Aquilo fechou todas as bocas. Ninguém pediu mais nada, e todos se prepararam para o fim jurando levar consigo o maior número possível de inimigos. E como levaram. Caramba, se levaram!

O monstro de ferro e fogo

E então começou o martírio. Os otomanos daquela época eram mestres indiscutíveis do cerco, e montaram nas colinas que dominavam o forte baterias com tantos canhões que faziam parecer pequeno tudo o que se tinha visto até então. Dia e noite, sem trégua, uma chuva de pedra, ferro e metralha despedaçava as muralhas e os homens de Santelmo.

O cronista italiano Francesco Balbi da Correggio, que estava lá dentro como soldado arcabuzeiro e nos deixou o relato mais fiel do cerco, descreve um estrondo contínuo, um inferno de explosões, fumaça, poeira, sangue, gritos e membros decepados em que era quase impossível pensar ou se manter de pé.

As muralhas desmoronavam mais depressa do que os defensores conseguiam repará-las. Faziam isso de noite, no escuro, amontoando escombros, sacos de terra e os cadáveres dos próprios companheiros para tapar as brechas. De dia, repeliam os assaltos em ferozes combates corpo a corpo. De noite, reconstruíam e enterravam os mortos. E na manhã seguinte, tudo de novo: um carrossel de pesadelo que se repetiu idêntico por um mês e um dia.

O único cordão umbilical com o mundo era o braço de mar que separava Santelmo do Burgo. Toda noite, pequenos barcos cruzavam a remo e no escuro a entrada do porto, levando munição, comida e homens de reforço e trazendo de volta os feridos. Os turcos, que de bobos não tinham nada, tentaram cortar esse fio de vida com baterias rente à água. Enquanto os barcos puderam passar, Santelmo continuou respirando. Quando deixaram de passar, Santelmo começou a morrer.

A noite dos abraços

Lá pelo fim de junho chegou o momento em que já não havia nada a fazer. As muralhas eram um monte de ruínas aplainadas, os poucos sobreviventes estavam exaustos ou mutilados, e todos sabiam que o próximo assalto seria o último. Naquela noite, conta Balbi, os homens fizeram algo que, sinceramente, me arrepia a pele toda vez que leio: sabendo que o amanhecer traria a sua morte, confessaram-se uns aos outros —os cavaleiros de São João eram frades e podiam confessar «legalmente» os seus camaradas—, cearam juntos uma última vez e se abraçaram e se despediram como irmãos antes da carnificina.

Os cavaleiros que já não se sustentavam de pé pediram para ser sentados em cadeiras colocadas nas brechas da muralha, com a espada ou o arcabuz na mão, para morrer de frente para o inimigo, no seu posto. Que alguém me explique como se enfrenta uma coisa dessas. Aquilo já não era estratégia nem guerra: era puro heroísmo e uma bela dose de coragem diante do inevitável.

Ao amanhecer de 23 de junho de 1565 —véspera, justamente, da festa de São João Batista, padroeiro da Ordem—, os otomanos lançaram o assalto final. A onda caiu sobre as ruínas e, desta vez, nada a deteve. Os últimos defensores morreram lutando, exatamente como haviam prometido. Ao longo do mês, cerca de mil e quinhentos homens tinham passado por aquelas muralhas; com a queda do forte, quase nenhum ficou vivo. Apenas alguns malteses, que conheciam o terreno, conseguiram se atirar ao mar e atravessar a nado para contar o que tinha acontecido.

A última noite do forte: os cavaleiros feridos se confessam e se despedem antes do assalto final.
A última noite do forte: os cavaleiros feridos se confessam e se despedem antes do assalto final.

O preço da vitória turca

Os otomanos tinham vencido, sim. Mas que vitória amarga. Conquistar aquele monte de escombros lhes custara trinta e um dias —quando esperavam cinco, tal como certo ditador russo dos dias de hoje— e, sobretudo, um número assustador de baixas: milhares e milhares de homens, incluindo o temido corsário Dragut Reis, um dos marinheiros mais lendários do Mediterrâneo, ferido de morte por um estilhaço durante as operações contra o forte.

Conta a tradição que Mustafá Paxá, contemplando as ruínas daquele fortim que tanto lhe custara, pronunciou uma frase que diz tudo: «Se conquistar Santelmo, o filho mais novo, nos custou tanto sangue e tanta morte, quanto caralho vai nos custar conquistar o pai?». Por pai referia-se ao Burgo, com o seu Castel Sant'Angelo, e ao forte de São Miguel: as duas grandes praças que ele nem sequer tinha começado a atacar.

E esse foi o verdadeiro triunfo de Santelmo. Aqueles homens não salvaram o seu forte nem as suas vidas, mas deram a La Valette trinta e um dias preciosos para reforçar as defesas principais, e infligiram ao exército otomano um desgaste moral e humano do qual ele já não se recuperaria. A grande máquina de guerra tinha mordido o primeiro osso do cerco… e quebrara os dentes nele.

Cabeças, cruzes e uma resposta à altura

O fim teve um epílogo macabro que convém contar, porque marca o tom de tudo o que veio depois. Segundo as crônicas, depois de tomar o forte, por ordem de Mustafá Paxá —e apesar da oposição do almirante Piyale Paxá, que tentou impedir semelhante barbaridade— os vencedores decapitaram alguns dos cavaleiros mortos e fincaram as suas cabeças em picas sobre a muralha; os corpos desmembrados, pregaram-nos em cruzes de madeira e os puseram a flutuar no porto, para que a corrente os arrastasse até o Burgo e semeasse o terror entre os sitiados. Obtiveram o efeito contrário: os cristãos, vendo o que os esperava, tiraram forças da própria fraqueza e decidiram vender caro a pele.

A resposta do velho La Valette foi das que gelam o sangue. O Mestre, que não era homem de ficar calado diante de tamanha crueldade, mandou decapitar todos os prisioneiros turcos que tinha e disparar as suas cabeças com os canhões contra as posições inimigas. Chovia literalmente cabeças do céu. A mensagem não podia ser mais clara: aqui não haverá rendição, nem clemência, nem quartel para ninguém. Seria uma luta de morte. E como foi, por todo o mês de julho e de agosto.

Entre as ruínas, os últimos defensores vendem caro a pele, até o último homem.
Entre as ruínas, os últimos defensores vendem caro a pele, até o último homem.

Quando, dois meses e meio depois, chegou enfim da Sicília o Gran Soccorso enviado por Filipe II da Espanha e os otomanos se retiraram derrotados, todo mundo entendeu uma coisa: a vitória tinha começado a se forjar naquele verão, nas ruínas daquele fortim em forma de estrela, onde um punhado de homens preferiu morrer de pé a viver de joelhos, reduzidos a escravos dos muçulmanos. Tudo isso, e o milagre final do socorro, eu conto dia após dia no meu livro Malta · O Grande Cerco Turco-Muçulmano de 1565, reconstruído a partir do relato de Francesco Balbi da Correggio, que viveu o cerco em primeira pessoa. Per Aspera, Ad Astra.

✠ David S. Matrecano · Autor de «Malta: o Grande Cerco Turco-Muçulmano de 1565»

Perguntas frequentes

O que era o forte de Santelmo?

Uma pequena fortaleza em forma de estrela, na ponta da península de Sciberras (Malta), que vigiava a entrada dos dois grandes portos da ilha.

Quanto tempo Santelmo resistiu em 1565?

Os otomanos esperavam tomá-lo em quatro ou cinco dias. Resistiu trinta e um dias, até 23 de junho de 1565.

Por que a sua resistência foi tão importante?

Cada dia de resistência desgastou o exército otomano e deu a La Valette um tempo precioso para reforçar as defesas principais do Burgo e de Senglea.

Quantos defensores morreram em Santelmo?

Praticamente todos. Ao longo do cerco passaram pelas suas muralhas cerca de 1.500 homens; apenas alguns malteses conseguiram escapar a nado.

Quem dirigiu a defesa de Malta?

O Grão-Mestre da Ordem de São João, Jean Parisot de La Valette, de setenta e um anos.

✠ Leitura recomendada ✠

Malta: o Grande Cerco Turco-Muçulmano de 1565

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✠ David S. Matrecano
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A VERDADE POR TRÁS DA HISTÓRIA

Caros leitores: tudo o que vocês acabaram de ler é rigorosamente real e comprovável em suas fontes históricas originais. Os personagens que vocês conheceram aqui hoje foram tão reais quanto vocês mesmos: existiram, lutaram, amaram e às vezes morreram exatamente como eu os descrevi — e tudo está documentado em fontes que qualquer curioso pode consultar (vocês as encontram aqui embaixo, se tiverem vontade). A única coisa diferente é a minha maneira romanceada de contar: revesti os fatos reais de tensão, aventura, humor e paixão para torná-los mais agradáveis, mais divertidos e muito menos chatos. Porque a História, aquela que sempre se escreve com H maiúsculo, nunca foi chata… só nos contaram mal desde criança. Se gostaram, deixem-me um pequenino «curtir» e um comentário na caixinha aqui embaixo; e se NÃO gostaram, podem também deixar um «não curti» me explicando o motivo. Estou aqui para melhorar, e todas as críticas são bem-vindas.

✠ David S. Matrecano
📚 Para os curiosos: fontes históricas específicas
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